POLÓNIA – Cerca de 700 jovens da Diocese de Jerusalém partiram na segunda-feira para participarem nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) que têm lugar, este ano, em Cracóvia, na Polónia. Siga, dia após dia, o seu périplo na Polónia, desde a sua partida de Jerusalém até à missa com o Papa Francisco, através do diário de George (nome fictício) que reúne os diferentes testemunhos e sentimentos que vivem os jovens do grupo da Palestina.

Verão de 2016, George é o nome fictício do jovem cristão Palestiniano de Jerusalém, que viaja para participar nas JMJ de 2016, que têm lugar este ano em Cracóvia, na Polónia, com a presença do Papa Francisco. Ele vive no quotidiano as experiências enriquecedoras e impressionantes que, pouco a pouco, transformam a sua alma esgotada por uma vida superficial centrada nas preocupações materiais e egoístas.

 

1ºDia – Partida (segunda-feira, 18 de julho de 2016)

De Jerusalém a Bem Gurion

Sem dormir nesta noite de 17 para 18 de Julho. Os últimos preparativos para esta longa viagem de 3 semanas na Polónia não me deixam dormir… não me quero esquecer de nada. De qualquer maneira não vale a pena deitar-me por uma hora uma vez que a partida está prevista, no Notre Dame, às duas da manhã. O avião descola às 7h50 da manhã e desta vez não partiremos de Amã, mas de Bem Gurion (Telavive). É melhor? As opiniões dividem-se, pois alguns sublinham, com razão, que o controlo é muito apertado para os palestinos em Bem Gurion.

De madrugada, um pensamento leva-me para o Senhor e peço-lhe que “abençoe” a minha peregrinação e a dos 180 jovens e acompanhantes que participam nas JMJ vindos da Palestina.

Às 3h45, chegámos a Bem Gurion. Um primeiro controlo à entrada, partimos em seguida para o Terminal. Até então não percebíamos porque tínhamos partido tão cedo. Mas uma vez frente aos guichés compreendemos que o registo das nossas bagagens levaria muito tempo. Com efeito não nos despacharemos antes das 8h. da manhã. Tínhamo-nos esquecido de um segundo e apertado controlo, que, por sermos palestinos, tínhamos de passar, antes do controlo dos passaportes. Revistaram todas as nossas bagagens de mão, por duas vezes, antes de nos deixarem passar para o controlo dos passaportes. Estamos muito atrasados, o voo foi retardado de uma hora e meia.

De Telavive a Varsóvia

Enchemos um avião Low Cost, o único grupo a bordo. Eramos muitos. Há jovens à volta de mim que viajam pela primeira vez na sua vida. Alguns têm medo do avião, uma ou duas pessoas pelo menos têm vertigens. Mas a situação está sob controlo.

Depois de quatro horas e meia de viagem, eis-nos chegados à capital polaca. Uma bonita cidade moderna que visitaremos mais tarde. Por agora, estamos tão cansados que não pensamos senão numa coisa: dormir para recuperar das 24h sem dormir.

De Varsóvia a Torum

Mas, surpresa, temos de apanhar um autocarro para chegar à cidade de Torum que nos vai acolher durante 3 dias, situada a três horas de autocarro desde Varsóvia. Os jovens rabujam um bocado, mas o acolhimento é de tal forma caloroso e tão minuciosamente preparado pelos nossos amigos polacos que nos sossegou um pouco e deu-nos coragem para esperarmos. No autocarro, os jovens ou dormem ou conversam. Estão exepcionalmente sossegados, provavelmente por causa do cansaço. Tanto melhor. Momento para mim para pensar um pouco e talvez rezar. Estão aqui, à minha frente, as duas principais vertentes destas JMJ: oração e fraternidade.

Em Torum o acolhimento é extraordinário. Nada falta. Penso que o povo polaco quando se envolve, entrega-se totalmente. Penso também que nós, palestinos em particular e árabes em geral, temos algumas coisas a aprender com este povo: o espírito de rigor no trabalho, o comprometer-se a fundo e também o privilegiar o bem comum.

Uma missa solene foi celebrada na Igreja dos militares dedicada a Santa Catarina. Uma construção neogótica do séc. XIX. A liturgia foi acompanhada pelos nossos amigos polacos, por um grupo africano extraordinariamente animado e por nós mesmo.

A missa foi seguida por um lauto jantar no hall do liceu onde ficamos instalados durante 3 dias.

O primeiro dia terminou….é preciso dormir pois o pois o programa do dia seguinte, bastante sobrecarregado, já foi anunciado. Obrigada Senhor, tu deste-me tanto durante este longo dia de amizade e de beleza, dai-me um coração que escute,um coração em paz, um coração sábio para viver intensamente estes próximos dias na tua presença e no teu amor. Cura a minha alma, tenho sede de paz….da Tua Paz.

 

2º Dia – À descoberta de Torum. Primeiro contacto com a vida polaca. (terça-feira, 19 de Julho de 2016).

São 8h00, o pequen–almoço já está pronto na mesma sala de ontem, notoriamente o nosso “refeitório” de todos os dias. No menu: ovos, presunto e manteiga polacos, diferentes queijos, e um óptimo pão acabado de fazer. A cozinha polaca continua a surpreender-nos e a agradar-nos!

No programa, várias visitas à cidade. Primeiro no Palácio do Governo, com uma conferência de imprensa e um encontro com o Governador. De seguida, uma visita à cidade onde encontrámos uma estátua de Copérnico. Visitámos um museu com uma mostra da vida do Padre Jerzy Polieluszko, uma importante figura da resistência contra o comunismo nos anos 80. Este jovem padre, que deu a sua vida pela libertação do seu país, foi cruelmente assassinado pelos comunistas.

Depois de um excelente almoço, fomos visitar uma aldeia tradicional do séc. XVIII ou XIX para aprendermos a confecionar o tradicional pão de especiarias polaco. Um concerto foi-nos oferecido pelos militares e por um jovem palestino de Naplusa que vive na Polónia e que fundou, com amigos polacos, um grupo de música oriental e ocidental chamado “boukra” que em árabe significa “amanhã”.

De volta à nossa residência, aproveitámos um tempo livre para, em pequenos grupos de dez, descobrirmos a cidade….pudemos assim encontrar amigos do grupo e o Padre Martin Schmidt ( o padre que organizou o nosso acolhimento), a cerveja polaca e o que resta da antiga cidade de Torum, sobretudo as muralhas medievais e o seu rio.

Obrigada, Senhor, por este segundo dia. Ensina-me a alegrar-me com a beleza, a simplicidade e a temperança. Ensina-me a estar mais atento aos outros, às suas necessidades e às suas fragilidades. Concedeu-me a vontade da integridade e da perseverança. Ámen.

 

3ºdia – Em direcção ao Norte ao Mar Báltico.

Depois da missa celebrada de manhã cedo numa Igreja gótica de há pelo menos 700 anos, eis-nos no autocarro a caminho de Gdansk, uma cidade do Norte da Polónia virada para o Báltico. O caminho é longo e a viagem durará cerca de 2h. Estamos cansados, mas ainda calmos, aproveito para pensar um pouco.

É importante falar muitas vezes com Deus para evitar a aridez espiritual. A oração ou a liturgia ou mesmo a missa podem não ser o suficiente para aquele que procura a intimidade com Deus. Razão pela qual, mesmo durante as férias (mais ainda durante estas Jornadas da Juventude, dias de espiritualidade por excelência), o cristão deve procurar reservar um momento do seu dia para fazer silêncio e um exame de consciência para interiorizar o que lhe foi dado viver para perceber o sentido profundo destas experiências e isto apesar das diversas tentações que o podem desviar destes momentos privilegiados.

As magníficas paisagens deste país, que tanto sofreu com sucessivas ocupações, favorecem este exercício, este movimento da alma para Deus e para o que de mais profundo há nela.

Depois de duas horas de trajeto, eis-nos a caminho do Centro Europeu de Solidariedade, um museu consagrado à história da libertação da Polónia da tirania do regime comunista durante os anos 80. Fiquei especialmente impressionado ao ver como a solidariedade assim como a perseverança são importantes para a realização dos grandes e nobres projectos do homem, que sofrendo a opressão, a injustiça e diferentes formas de tirania que sobre ele se podem abater, continua a aspirar pela liberdade e pela justiça.

“Não podemos aplaudir com uma só mão, são precisas as duas”, diz um provérbio árabe. Uma lição e um exemplo para nós, palestinos, que continuamos a sofrer a ocupação israelita, mas também o egoísmo dos nossos líderes políticos que devem aprender com o exemplo a trabalhar em conjunto e sobretudo a dialogar.

Depois de uma rápida visita ao centro da cidade, partimos para o mar Báltico. Para nós, habituados a um litoral mediterrânico, a diferença é enorme. Não há nada em comum, nem as paisagens, nem a cor da água nem a temperatura.

Voltámos à noite a Torum, muito cansados, mas felizes por este dia rico em emoções. Temos de descansar se quisermos chegar ao fim desta maravilhosa experiência. Amanhã, iremos a Varsóvia onde ficarmos quatro dias antes de nos juntarmos ao Papa e aos três milhões de jovens católicos esperados em Cracóvia.

(segue)

 

 

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