Estamos no início do capítulo dezassete do Evangelho de São Lucas, onde se encontra uma das parábolas de Jesus sobre a vida em comunidade: logo no início, ele diz que é inevitável que haja escândalos, mas põe de sobreaviso aquele por quem ele vier  (Lc. 17, 1-3a), fala em seguida da repreensão fraterna e na necessidade de perdoar sempre “sete vezes por dia” (Lc. 17, 3b-4) e, de seguida, temos duas curtas passagens sobre o perdão e o serviço. (Lc. 17,3b-4).

Podemos tentar compreender estes primeiros versículos desta forma: o primeiro obstáculo à vida fraterna encontra-se potencialmente dentro de nós pois ninguém pode pretender estar exempto da possibilidade de ser objecto de escândalo para outro alguém. Em vez disso Jesus diz: “Tende cuidado e olhai por vós mesmos!”. (Lc. 17, 3).

Pode no entanto acontecer (versículos 3-4), que o problema tenha origem, na realidade, no pecado de um dos nossos irmãos, Jesus lembra-nos então a nossa responsabilidade e o nosso dever de não abandonarmos o nosso irmão no seu mal, mas de irmos à sua procura e trazermo-lo para casa, de o acolhermos, mesmo que ele cometa o mesmo pecado sete vezes por dia. O pecado do meu irmão é a mim, antes de mais, que interpela!

O pedido dos Apóstolos a Deus (“Aumenta a nossa fé” v. 6) nasce provavelmente do seu espanto ao ouvirem as Suas palavras: eles têm a impressão, e isto inquieta-os, que para se ser um discípulo assim seria necessário ter uma enorme força, uma enorme determinação e uma enorme santidade.

É interessante notar que eles pedem a Jesus que faça crescer, que aumente, que melhore: eles mostram assim que estão ainda prisioneiros de uma mentalidade mundana continuando a pensar em termos de grandeza, de poder, de segurança.

A lógica do mundo é sempre a de procurar o que é grande: tem-se confiança no que é forte.

Mas o caminho da fé segue uma outra lógica: ela procura o que é pequeno, o que fica atrás, o que é pobre e que fica n último lugar.

É bom ver que Jesus compara a fé a uma semente: o que há de mais forte do que uma semente?

Se a força do mundo é uma força que ocupa um espaço, que impõe leis, que toma a dianteira, a força da semente é a de uma vida que se desenvolve pacientemente, que traz à relação uma dinâmica nova, que sabe ver o bem esteja ele onde estiver: “é esta a fé que encontramos na primeira leitura (Ab 2, 2-4), esta fé humilde e tenaz que sabe esperar, que aceita com humilde paciência o caminho a percorrer, que não desespera.

Se ela fosse grande, se ela fosse forte, seria uma segurança e um poder como qualquer outro poder deste mundo.

Mas a fé não consiste tanto em ser-se forte, mas mais em saber-se abandonar à força de um outro. Não é sem razão que São Paulo afirma que é justamente quando se é fraco que se é forte (2 Cor. 12, 0).

Não é de espantar que no Evangelho de São Lucas a fé seja pertença exactamente dos mais pequenos, dos que não podem contar com as suas próprias força, mas que deixam lugar à obra do Senhor nas suas vidas, dos que confiam Nele e se põem nas suas mãos.

Esta fé reduzida à sua pequenez, que se alimenta de confiança e de abandono, esta fé – diz Jesus – é capaz de realizar o que parece impossível: o sicómoro que é tido como uma árvore forte e sólida, praticamente impossível de ser “desenraizada”….

A fé está justamente ligada a coisas impossíveis, não porque ela encha a nossa vida de milagres, mas porque nos torna capazes do maior dos milagres que possa acontecer a alguém: ser capaz de transformar o mal em bem, fazer brotar a vida da própria morte.

Diante deste mistério do mal, face ao qual o homem está só e sem defesa, a fé permite dar o passo para abrir de novo um caminho, recrear a confiança e permitir assim encontrar um novo sentido: porque na fé nada está definitivamente morto.

Eis porque tudo o que está profundamente enraizado em nós, tudo o que com as nossas forças não poderia ser deslocado nem um milímetro, tudo isto pode ser salvo somente e por se ter a fé igual a um grão de mostarda.

A parábola do servo insere-se aqui para mostrar que a nossa força não está nas obras. Nós não podemos pretender ter direitos face ao Senhor por lhe termos obedecido em tudo meticulosamente porque, na realidade, a fé é capaz de se deixar surpreender pelo dom de Deus.

A parábola não pretende mostrar a atitude do Pai como a de um senhor exigente e insaciável. Pelo contrário ela diz-nos que a fé não é um contrato que dê direito a uma recompensa. Ela lembra-nos que nunca podemos considerá-la “tranquila e em ordem” porque ela é um trabalho que nunca está acabado. E isto simplesmente porque não se trata de um trabalho, mas de acolher um dom…

                                                                                                              + Pierbattista

Em italiano no original

 

 

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