23 de Outubro de 2016

XXX domingo do tempo comum, ano C

No domingo passado, o Evangelho fez-nos refletir sobre o tema da justiça, uma justiça de Deus que não é como nós, homens, a entendemos – uma justiça vingadora que castiga os maus e recompensa os justos, mas sim a realização de um plano de amor podendo mesmo ir buscar o bem no mal e a vida a partir da morte; como vamos ver hoje, transformar um pecador num homem justo…

Com efeito, o tema da justiça volta hoje, assim como o da oração: Jesus diz a alguns que “estavam convencidos que eram justos” (Lucas 18, 9) na parábola do fariseu e do publicano que sobem ao templo para orar. E, no fim desta parábola, é o publicano e não o fariseu que foi para casa justificado. (Lucas 18, 14).

No seu evangelho, Lucas apresenta muitas vezes duas personagens para nos dar diferentes formas diferentes de estar no mundo, de ir ao encontro de Deus: Simão o Fariseu e a pecadora (Lucas 7, 36-50), Marta e Maria (Lucas 10: 38 – 42)…

Hoje, encontramos um publicano e um fariseu. Os dois fazem o mesmo: sobem ao templo para rezar, mas fazem-no de formas completamente diferentes: o fariseu põe-se em destaque fisicamente (muito direito), muito seguro de si. O publicano, ao contrário, fica à distância e bate no peito.

Na realidade, diante de Deus eles têm uma atitude oposta. O publicano sobe ao templo para se mostrar a Deus, para deixar que o Senhor pouse o olhar na sua miséria. Ao contrário, o fariseu sobe ao templo para se esconder. E esconde-se principalmente sob as suas duas atitudes.

Primeiro, ele dissimula-se atrás das suas obras, atrás da sua perfeição, atrás da sua observância da lei. “Jejuo duas vezes por semana, entrego o dízimo de tudo o que ganho” (Lucas 18, 12). Esta parede que levanta entre Deus e ele impede-o de ver o Senhor, de ser visto, porque ele só se vê a ele. Faz pena perceber que a única coisa que ele sabe dizer (e isto mesmo antes de ver) sobre a sua relação com o Senhor, é quantas vezes jejua, quanto paga

Por outro lado, o fariseu esconde-se atrás dos “outros homens que com enorme certeza qualifica todos, sem exepção, de “ladrões, injustos, adúlteros” (Lucas 18, 11), e para ele o publicano é um perfeito exemplo disso.

Poder-se-ia pensar que o fariseu tem medo e ser “como os outros homens” (Lucas 18, 11) como se o pertencer a uma fraternidade humana comum pudesse ser prejudicial à sua dignidade ou como se tivesse medo do limite, do mal, do pecado e chegasse mesmo ao ponto de se renegar para entrar no ciclo dos homens puros e perfeitos que não precisam de ninguém, nem mesmo de Deus e do seu perdão.

Aquele que ao contrário não tem medo de se mostrar a Deus na sua fragilidade, não precisa geralmente de denegrir seja quem for: ele sabe que não merece nada, que a misericórdia de Deus não tem um preço e que é para todos. É esta a atitude do publicano.

Curiosamente, a pureza e a perfeição vão muitas vezes de par com um coração duro.

O que imediatamente chama a atenção na parábola é o contexto do que é contado: no início da passagem, no versículo 9, o evangelista diz-nos que os destinatários da parábola fazem parte dos que se consideram justos e desprezam os outros. Nesta frase, a palavra que destoa é precisamente a conjunção “e” que marca a contradição gritante entre a sua pretensa justiça e o julgamento sem apelo que fazem dos outros. Poder-se-ia esperar que como se consideram justos tivessem um coração misericordioso. Mas não é este o caso.

Este relato põe, mais uma vez, a questão da justiça.

Se a justiça é o respeito de uma lei, se a salvação se merece então é fácil, ao avaliar todos os outros, encontrar-se algo que não esteja bem.

Com Jesus não se passa assim: a justiça é o perdão dado ao que se apresenta diante de Deus com um coração humilde; e é a experiência intima deste amor incondicional que tem o poder de mudar as nossas vidas.

Ao invés disto, o fariseu tornou-se injusto enquanto rezava o que é, de certa forma, dramático e triste. Não são tanto os pecados que nos tornam injustos, se estes nos levarem à humildade e à experiência da misericórdia de Deus, mas a nossa presumível santidade e as nossas boas obras e, infelizmente também, a nossa oração se esta oração não nascer de um coração pobre, capaz de se apresentar nu diante de Deus.

É somente quando reconhecemos o nosso pecado que reconhecemos também a bondade de Deus, a sua verdade, a sua justiça.

Para Deus, ninguém é injusto. Somente a sua misericórdia e o seu perdão nos permitem ficar na sua presença.

+ Pierbattista

Em italiano no original. Traduzido para português a partir da versão francesa

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