XXII domingo do tempo ordinário, ano C

Nenhum de nós gosta de ocupar o último lugar.

De igual forma, nenhum de nós, quando faz alguma coisa por alguém, não o faz sem estar à espera de algo em troca.

Pelo contrário, gostamos de ser os primeiros, ficamos felizes quando a nossa dignidade é reconhecida, quando somos apreciados, respeitados, honrados: e, de cada vez, tentamos sempre ganhar alguma coisa ou, pelo menos, nada perder.

Assim o ensinamento de Jesus, no Evangelho de hoje, parece estranho: leva-nos de novo para esta “lógica invertida” de que falámos no domingo passado.

Jesus fala por duas parábolas, no contexto de um banquete organizado por um fariseu influente, em casa de quem Jesus estava a almoçar.

A primeira parábola parece verdadeiramente estranha: vendo os convidados avançarem para escolherem os melhores lugares, Jesus convida a que façam exatamente o contrário. Fiquemos ao fundo e assim o dono da casa far-nos-á passar para a frente. Esta atitude pode parecer uma escolha oportunista, um cálculo astucioso ou uma simples questão de etiqueta. Mas não é assim, e atrás desta estranha intervenção esconder-se-ia uma verdade simples, uma intervenção do caminho a seguir.

Jesus quer simplesmente dizer que o caminho para se chegar aos primeiros lugares implica, necessariamente, o ter de se passar por posições inferiores e que é somente aquele que soube viver “em baixo” e que conheceu a graça que está em condições de subir “para o alto”. Porque Jesus sabe que o último lugar é uma graça. A graça daquele que sabe o que vale para além do lugar que ocupa, a graça do que não alimenta a ilusão de ser alguém importante pelas honras que recebe. A graça do que sabe receber a vida como um dom, a graça do que sabe servir. É geralmente algo que não é evidente para nós e passamos grande parte do tempo a aspirar por posições de poder. Muitos dos nossos combates, das nossas dificuldades de relacionamento têm a sua origem nesta ambição de se querer ocupar os primeiros lugares.

Não somos os únicos: mesmo no seio da primeira comunidade à volta de Cristo não faltam exemplos deste problema. Os sinópticos estão de acordo ao dizerem que os discípulos de Cristo se enredavam muitas vezes em discussões para saberem qual deles era o mais importante (cf. Lucas 22-24) e que numa ocasião a mãe de dois deles teria intercedido para que os seus filhos pudessem ocupar os primeiros lugares (Mt. 20, 20 a 24).

É a tentação do homem, tentação a que o Próprio Jesus foi submetido no deserto.

Mas acontece que a vida se encarrega, ela própria, de nos mostrar como é vã e efémera esta glória, e que pela graça, nós alcançamos, de uma certa forma, a graça de tombarmos. O que pode ser o princípio da salvação porque o Senhor quis que a salvação assim viesse, fazendo entrar na história humana esta lógica invertida, muitas vezes dolorosa, mas eficaz, pela qual aquele que se rebaixa a si próprio fica em condições de poder ser honrado; para assim fazer uma experiência de libertação, de verdade, de graça, para descobrir o verdadeiro valor das pessoas e dos acontecimentos da vida.

É aqui, no último lugar, que começamos verdadeiramente a viver.

A segunda parábola fala-nos de uma verdade muito simples, já gravada na verdade do coração humano. Jesus dirigindo-se ao que o convidou, fala-lhe da bondade daquele que convida para o seu banquete os que nada têm para lhe dar como retribuição.” Feliz serás tu porque este nada tem para te retribuir”. (Lc. 14,14)

Porque se dermos para receber nada acontecerá na nossa vida. Ninguém ganhará nada e ninguém perderá nada. Será uma simples troca comercial.

Mas se dermos sem nada esperarmos de volta, reconhecemos e honramos a gratuidade de que é feita toda a nossa vida, e crescemos em humanidade. Somos simplesmente verdadeiros.

E fazemos um gesto que abre a vida para horizontes eternos, abrindo-a para a ressurreição: “mas serás recompensado na ressurreição dos justos”. (Lucas 14,14).

As trocas acabam aqui e agora; a gratuidade é a beatitude da vida sem fim.

A esta gratuidade, Cristo atribui algo de muito importante; a beatitude, ou seja a revelação da verdadeira alegria. E nós sabemos que assim é, que quando conseguimos sair do nosso mundo feito de interesses e de cálculos para entrar num espaço de gratuidade estamos a fazer verdadeiramente a nossa experiência de uma alegria diferente, profunda, autêntica, uma alegria que nunca abranda.

Jesus não se contenta em afirmar isto. O Evangelho de João, no capítulo 13, dá-nos como um ícone que parece ser uma síntese destas duas parábolas: encontramo-nos aí, também no contexto de um banquete, trata-se da última refeição antes da Paixão; o Senhor, o mestre, retira as suas vestes, vai para o último lugar, lava os pés dos seus discípulos, e não esquece ninguém, nem mesmo o que o trairá e o renegará. Este não só nada lhe dá como em troca, como retribui-lhe com mal.

E depois disto, Jesus repete a beatitude reservada aos que conheceram a sabedoria escondida dos últimos lugares: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes”.

                                                                                                               + Pierbattista

Traduzido do francês

Texto original em italiano.

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