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ABU-GOSH – No dia 2 de Fevereiro, dia da Festa da Apresentação, Frei Brice, monge do Mosteiro de Santa Maria da Ressurreição de Abu Gosh, foi ordenado diácono, no seu percurso para o sacerdócio, por Mons. Marcuzzo, Vigário Patriarcal em Israel. O religioso aceitou lembrar o seu passado e falar nesta nova etapa da sua vida inteiramente dedicada a Deus e à Igreja.

Os monges de Abu Gosh tem um carisma comum, o de saberem formar uma família com todos os que se aproximam do Mosteiro para, em conjunto, fazerem uma parte seu percurso. Não interessa que se seja israelita, palestino ou de qualquer outra origem. O Frei Brice, sob uma aparência de uma grande timidez, não é uma exepção. Foi com grande solicitude que acedeu responder às nossas perguntas, depois de ter sido ordenado diácono por Mons. Marcuzzo no dia 2 de Fevereiro.

Na sua homilia, o Vigário Patriarcal relembrou algun Brice lembrando em seguida que elebravam o dia da Festa da Apresentação: uma festa de encontro, uma festa de oferenda. Desde há alguns anos, que esse dia é dedicado, pela Igreja, à vida consagrada, o que levou os monges a escolherem-no para a ordenação diaconal de Frei Brice.

No momento desta nova etapa da sua vida de religioso, desta nova forma de oferecer a sua vida, gostaríamos saber mais. Pode-se apresentar, Frei Brice?

Tenho 56 anos. Como muitos dos filhos de militares, nasci, como as minhas irmãs, ao acaso das afectações da sua carreira, em Agen. Depois de uma formação científica, integrei a Marinha Nacional, no âmbito da qual tive a sorte de embarcar num navio de investigação oceanológica, cumprindo assim um sonho de juventude, durante tantos anos alimentado pelas fabulosas explorações do Comandante Cousteau.

A vocação monástica não apareceu naturalmente no meu caminho. Aos meus pais, que há alguns anos me perguntaram: “Mas o que fizemos para que te tornasses monge?” Respondi-lhes: “Não fizeram nada, e esse é o vosso grande mérito!” E assim….

As minhas irmãs e eu recebemos dos nossos pais uma educação humanista, mas não religiosa. A vocação monástica e a fé chegaram ao mesmo tempo à minha, vida trinta minutos apenas depois de um primeiro contacto com uma monja beneditina. Tinha 18 anos quando fui levado por um amigo, que segui cegamente para escapar a um trabalho de matemática particularmente aborrecido… Era uma época em que me atribuíam a qualidade de ser “ramo que verga sob os ventos, mas que nunca quebra”: Marinheiro quis ser, marinheiro fui! Resisti assim, anos e anos ao sopro, cada vez mais insistente, do Espírito Santo, mas por fim cedi, às mãos do próprio Jesus que decidiu acolher-me assim, sem mais!

Passados mais de trinta anos, fico ainda surpreendido de acordar cada manhã na qualidade de monge. Mas, mal acabo de vestir o meu hábito monástico, o espanto dá lugar a esta forte e tranquila segurança de ter encontrado o meu lugar em Deus… no mosteiro…

No entanto About não são bem as da da minha anterior vida. Tenho a meu cargo a hospedaria, a manutenção técnica, a fotografia e a contabilidade. Mas a ruptura é só aparente: o que sei da vida monástica aprendi-o, em parte, no navio.

Quando se entra numa comunidade religiosa para servir Cristo como monge, pode-se imaginar que se vai ser chamado um dia a ser um dia padre? Como aconteceu consigo?

Pensei alguma vez em me tornar padre? Nunca. Lembro-me de aos 19 anos ter renunciado á vida de missionário como alternativa para a vida monástica porque associava então a figura do missionário à de padre. Mas nessa altura, o ministério sacerdotal, pois é…”não o sentia”. Então o caminho só me poderia levar para o mosteiro…. Depois, o Espírito Santo corrigiu a minha percepção das coisas porque experimentei um pouco da vida de missionário em Madagáscar, há já 20 anos!

O apelo ao sacerdócio, vindo da parte do meu Abade, há quatro meses, foi para mim uma grande surpresa.

Não tive de pensar os prós e os contras deste apelo. Porque à medida que se alongava a lista de objeções pelas quais naturalmente tinha começado,  cada vez tinha mais consciência da percepção negativa em que me tinha fechado ao longo de anos. Não tinha assim nenhuma outra opção senão a de me evadir da prisão em que me tinha murado, e não haveria resposta com mais liberdade do que dizer SIM.

Porque as razões profundas da escolha de Deus para o sacerdócio estão muito para além do entendimento não só do escolhido, mas também do que chama, o meu Abade dizia-me então, sem dar nenhum detalhe, que via no ministério sacerdotal um grande benefício para a minha vocação monástica, e assim, para a comunidade e para a Igreja.

Inclino-me diante deste mistério, o olhar posto nos discípulos que deixaram em terra as suas redes para seguirem Jesus, sem terem qualquer mérito pessoal para compreenderem a escolha de Cristo. E que não procuraram questionar-se sobre isso. E felizmente! Porque rapidamente o seguimento da história os trouxe à realidade das suas fraquezas, das suas ilusões… Eles, simplesmente deixaram-se amar e amaram-no.

Deus também é para mim Tudo. Amo-o mais do que a tudo e Nele toda a sua criação… . Mas não veja nisto aquilo a que se costuma chamar um amor cego. O amor nunca o pode ser. Aquilo a que se chama amor cego não é amor, mas somente o primeiro degrau de uma escada que leva ao fanatismo, à paixão.

Obedecendo como os discípulos obedeceram, procuro simplesmente preservar, no meu jardim interior, um canto selvagem que seja um espaço de liberdade, que Deus possa arrumar à sua vontade destinado a fazer parte da pequena parcela de terra interior que Ele me dá para a tornar mais rica, para ir treinando para o dia em que Ele nos confie um jardim de uma beleza luxuriante sem qualquer comparação com a Criação que hoje conhecemos.

Hoje, deu um primeiro passo para uma nova forma de serviço. Pode-nos dizer o que vai mudar para si, no quotidiano e, talvez, na sua relação com o Senhor?  

É um pouco cedo para responder à sua pergunta tendo em conta o caracter recente do chamamento. Estou ainda a fazer o inventário das peças de um novo puzzle na minha vida sem conhecer o modelo da imagem a reconstituir! Deus guarda-o para Ele, arrogando-se o direito (um pouco cioso, convenhamos!) de fazer o puzzle com as peças e que tenho de lhe mostrar. Pois, como percebeu; a vida dos homens é como um puzzle em que a montagem é feita a dois, entre o Pai e cada um dos seus filhos.

Foi necessária toda uma vida monástica para compreender e aceitar esta regra do jogo, tão simples mas que nos torna tão inseguros por estarmos tão ligados a um mundo que conforta o homem com a ilusão de ser dono da sua vida numa procura cada vez mais narcísica e mortífera de si.

Mas a minha resposta tranquila e confiante no chamamento reconforta-me pela importância e solidez da presença que Cristo foi tomando na minha vida. De agora em diante, tenho a certeza de que mais nada me pode separar de Cristo. Ao pronunciar o FIAT esperava dar mais um passo no terreno instável e pantanoso em que me movia há 33 anos. Mas em vez de tropeçar e praguejar pela enésima vez num enésimo charco de água, encontro-me, como por milagre, num caminho bem pavimentado ao lado do qual, sem o saber, eu andava e do qual me desviava, no momento oportuno para o atravessar até à minha estrada! Ainda sob o efeito da comoção, este não é tanto o momento para se perguntar o que se vai fazer, mas para se alegrar e dar graças por esta fortuna. E é assim que eu vejo o tempo do Diaconato que, vivido em vida monástica – que é já por si um serviço de Deus – não se desenrola da mesma forma do diaconato permanente.

Mas ficam a saber que este jardim quer ser um lugar de encontro aberto a todos os homens de boa vontade que aí desejem reposar-se e alargar o seu horizonte.

Entrevista de Cécile Klos.

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