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Carta à Diocese
“Regressaram a Jerusalém com grande alegria”
Uma proposta para viver a vocação da Igreja na Terra Santa
Caríssimos,
Que o Senhor vos conceda a paz!
Ao longo destes anos de ministério pastoral, dirigi-me a vós, nossa amada Igreja de Jerusalém, de várias formas: através de homilias, breves cartas e, sobretudo, durante as minhas visitas pastorais. De modo particular, estas visitas foram momentos de encontro e partilha com as comunidades que moldam a vida da Igreja local, bem como a minha própria vida. Permitiram-me conhecer mais profundamente a nossa Diocese e deram expressão concreta à unidade entre pastor e comunidade que constitui o fundamento da nossa vida como Igreja.
Nos últimos tempos, fomos mergulhados em mais uma guerra trágica, com todas as suas consequências na nossa vida quotidiana. Isso obrigou-nos a repensar os modos e os meios do nosso ministério, um ministério que procurei exercer com a maior fidelidade possível. Os tempos dramáticos que vivemos obrigaram-nos a todos a empenharmo-nos mais assiduamente no serviço aos pobres, na denúncia da injustiça, na presença junto da nossa comunidade e, sobretudo, na oração e na escuta da Palavra de Deus, procurando sempre a unidade e a verdade, colocando-nos diante d’Ele e uns diante dos outros.
À luz de tudo o que está a acontecer – e do impacto que teve e terá na vida da nossa Igreja – sinto a necessidade de oferecer uma palavra mais profunda e uma reflexão mais ampla, significativamente mais extensa. Esta Carta não se destina a uma leitura rápida ou parcial, nem deve ser utilizada como texto de análise política. É proposta como leitura pausada, como instrumento de discernimento e de promoção do diálogo e da reflexão nos nossos contextos eclesiais, nas nossas comunidades, mosteiros e famílias. O seu objetivo não é apresentar respostas imediatas ou soluções técnicas, mas ajudar cada pessoa a reflectir sobre como viver hoje a nossa fé cristã nesta terra à luz do Evangelho.
É difícil limitar-me às habituais declarações sobre a actualidade, que muitas vezes se sucedem quase idênticas no tom e no conteúdo. Sinto que é urgente dizer algo mais verdadeiro e talvez mais significativo. O sofrimento que partilhamos nestes tempos não
nos permite, de facto, ficar por palavras suaves e abstractas – palavras sem credibilidade. Nem podemos limitar-nos a mais uma análise da situação ou à condenação de alguma injustiça.
Análises e condenações deste tipo têm sido publicadas regularmente, e muito já dissemos sobre tudo isto. Embora continuem a ser necessárias, e não possamos deixar de as fazer, não criam horizontes de confiança. Ainda que haja quem, fora da nossa comunidade, se identifique com estas avaliações, elas não são suficientes. Devem ser acompanhadas por uma reflexão sobre aquilo que o Senhor nos pede neste momento. Além disso, devemos interrogar-nos sobre como expressar a nossa fé neste contexto difícil, tanto em palavras como em acções. Esta questão tem acompanhado o meu ministério como pastor: como podemos nós, como cristãos, como assembleia eclesial, orientar-nos nesta situação de conflito – político, militar, espiritual – um conflito que tememos que continue por muitos anos? Este conflito faz parte integrante da vida da nossa Igreja, tal como da nossa existência quotidiana. Infelizmente, tornou-se também parte da cultura desta Terra. Assim, o conflito não é algo simplesmente a ultrapassar, mas o próprio lugar onde a nossa Igreja é chamada a cumprir a sua missão específica como comunidade de crentes em Cristo. Nesta Terra onde os contornos da identidade são tão fortemente defendidos, a nossa existência cristã deve tornar-se testemunho de um estilo de vida próprio, mesmo no meio do conflito, e deve encontrar expressão visível e reconhecível naquilo que dizemos e fazemos. Somos chamados a propor uma leitura destes tempos a partir de uma perspectiva cristã que nos caracterize de forma clara e reconhecível como cristãos.
Com esta Carta, procuro abordar esta questão. Trata-se do fruto laborioso e doloroso – como qualquer tentativa de síntese espiritual – da minha reflexão, da minha oração e do amadurecimento que fui adquirindo ao longo do tempo. Evidentemente, não se trata de uma síntese perfeita. Deve antes ser entendida como uma proposta inicial de reflexão, que amadurecerá com o tempo, aperfeiçoando-se e completando-se, especialmente através do diálogo e até do debate, se necessário, com outros que desejem participar neste esforço de síntese e releitura da nossa realidade. A única condição para este intercâmbio é que todos sejamos movidos por um sincero desejo de procurar compreender a vontade de Deus para cada um de nós. Reúno aqui também, de forma mais sistemática e ordenada, aquilo que já apresentei de modo disperso em várias ocasiões nos últimos anos.
A minha reflexão girará em torno de um ícone bíblico da cidade, e em particular da cidade de Jerusalém. A imagem da cidade é difundida e familiar. Significa convivência e relação, tanto civil como religiosa. Não nos deteremos numa ideia genérica de cidade, mas sim em Jerusalém, como modelo ideal de referência, recordando passagens da Sagrada Escritura a este respeito. Somos a Igreja de Jerusalém, e a Cidade Santa não é apenas o nosso lugar geográfico, mas também o coração espiritual da nossa comunidade eclesial. É o Lugar que guarda o centro da nossa fé – a Redenção. Jerusalém é, portanto, também o lugar geográfico e espiritual que preserva a identidade da nossa Igreja, o centro ao qual regressamos para encontrar a inspiração necessária para este tempo. A nossa Igreja tem um rosto multifacetado, que exprime a riqueza dos seus ritos e tradições. Desde as suas origens até hoje, foi essencialmente plural, dado que Jerusalém é a mãe de todos os povos. Além disso, durante muitos séculos teve uma configuração clara: uma Igreja predominantemente inserida num contexto árabe. O nosso olhar sobre os acontecimentos que estamos a viver parte, portanto, desta Igreja, espalhada pelo seu vasto território. É um olhar que, precisamente por estar enraizado nesta Terra, aspira a abraçar e incluir todos os seus habitantes.
É na Cidade Santa que cada comunidade se pode reconhecer – desde a mais pequena paróquia até à mais populosa na Jordânia, desde a realidade vibrante no Chipre até aos fiéis de língua hebraica em Israel, desde as paróquias provadas da Palestina até às que estão presentes e enraizadas em Israel, desde os migrantes e requerentes de asilo até às outras diversas realidades da nossa Diocese. Jerusalém é o modelo espiritual que unifica a nossa Igreja, apesar de estarmos dispersos por territórios e situações políticas tão diversas.
A Carta está estructurada em três partes: a primeira começa com a minha avaliação do actual estado de desordem. Antes de falar de ideais, é necessário enraizarmo-nos firmemente na realidade tal como ela é, reconhecendo ao mesmo tempo a presença activa de Deus nela.
Na segunda parte, gostaria de partilhar uma visão para a nossa comunidade, inspirada e enraizada na Sagrada Escritura, concretamente ancorada em Jerusalém.
A terceira procurará traduzir essa mesma visão em implicações pastorais para a nossa comunidade eclesial, abordando as actividades das nossas paróquias, famílias, escolas e instituições.
Como já referi, esta Carta é sobretudo de natureza pastoral: não contém considerações nem análises puramente políticas. É “política” apenas num sentido mais amplo, na medida em que diz respeito à nossa permanência na polis como cristãos, isto é, à nossa permanência no mundo real e na nossa Cidade de Jerusalém, sempre orientados para a verdadeira e definitiva polis, a Jerusalém celeste.
Parte I
Ler a realidade: considerar o presente
Antes de abordar a nossa missão como crentes, devemos olhar com honestidade para o contexto em que somos chamados a viver. É necessário partir da realidade em que nos encontramos, se quisermos responder de forma concreta à questão que nos acompanhará ao longo de toda a Carta: como podemos nós, como cristãos, viver no meio deste conflito?
Numa realidade complexa como a nossa, qualquer tentativa de síntese é, por natureza, parcial. Aceito o risco que isso implica.
Não pretendo aqui reconstruir uma crónica dos acontecimentos. Procuro, antes, compreender o seu significado global. O dia 7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza tiveram um significado diferente e profundamente perturbador para os dois povos que vivem nesta terra. Para os palestinianos, estes acontecimentos representam mais uma fase dramática numa longa história de humilhação e deslocação. Para os israelitas, por outro lado, representam algo sem precedentes, uma violência que trouxe de novo à memória os horrores vividos na Europa há oitenta anos. Sem entrar neste debate, que ultrapassa o nosso âmbito, importa sublinhar que o 7 de outubro e a guerra em Gaza são hoje amplamente considerados acontecimentos de rutura, que encerraram uma era e abriram outra, da pior forma possível.
Neste sentido, fomos lançados num “depois” que temos dificuldade em compreender,
mas cujos contornos já começam a ser visíveis.
Aquilo que estamos a viver não é apenas um conflito local. O conflito local é o sintoma de uma crise muito mais profunda, uma mudança de paradigma global. Durante décadas, a comunidade internacional, e particularmente o mundo ocidental, acreditou numa ordem internacional baseada em regras, tratados e multilateralismo. Não sem alguma hipocrisia, afirmava que o direito internacional, as Convenções de Genebra e as resoluções da ONU, apesar das suas imperfeições, eram instrumentos necessários para regular a convivência entre os povos, protegendo os mais fracos da lei do mais forte. Hoje, parece que todos despertaram para a fragilidade desse sistema, evidenciada pela incapacidade de gerir estes conflitos. Em Israel e na Palestina, por razões diferentes e até opostas, a confiança nesse sistema já se dissipou há muito tempo.
Assistimos a um recurso renovado ao uso da força como meio decisivo para resolver disputas, cada vez mais reduzido quase exclusivamente às suas formas violentas e militares, em detrimento de outros caminhos baseados no direito, no diálogo e na responsabilidade para com os civis. A guerra tornou-se objecto de um culto idolátrico: já não nos sentamos à mesa para evitar o conflito, mas consideramos a guerra um desfecho possível, ou até inevitável. Os civis deixaram de ser vistos apenas como danos colaterais; esses danos são imputados ao inimigo por não se render, ou os civis são utilizados como instrumentos para atingir objectivos militares. A guerra torna-se um fim em si mesma. Algumas potências mundiais, que antes se apresentavam como garante da ordem internacional, revelam hoje um outro rosto: escolhem lados não com base na justiça, mas nos seus próprios interesses estratégicos e económicos. Muitas instituições – civis, políticas e religiosas – acabam por permanecer como espectadores silenciosos e impotentes perante esta nova desordem global.
A lógica da dissuasão como instrumento de segurança, o recurso às armas e à força na gestão dos conflitos e o próprio conceito de defesa levantam hoje profundas questões éticas e políticas: a sua legitimidade, os modos da sua utilização, os custos económicos e sociais, as consequências concretas para a população civil, entre muitas outras.
A estas questões soma-se um elemento que não pode ser ignorado: a consciência cívica dos povos, que amadureceu ao longo do tempo e é profundamente moldada pela assimilação dos valores da dignidade humana, do respeito pela vida e dos direitos fundamentais. Este património moral, hoje inscrito no coração das sociedades contemporâneas, interroga cada escolha política e militar e impõe limites claros ao uso da força.
A história desta Terra, marcada por conflitos antigos e recorrentes, ensina-nos também que é ilusório pensar que a força, mesmo quando considerada necessária a curto prazo, possa por si só oferecer uma solução duradoura. Quando a força se torna a linguagem comum e o critério dominante, acaba por alimentar uma espiral de violência extremamente difícil de travar.
Esta violência deixa feridas profundas: destruição material e lacerações morais que pesam sobre as gerações futuras. Por isso, sem ignorar a complexidade das decisões que as autoridades têm de enfrentar, não podemos deixar de recordar que a força não pode ser o horizonte último, nem o fundamento sobre o qual construir um futuro de paz.
O papel dos meios de comunicação social é hoje mais central do que nunca. Por um lado, são a janela através da qual recebemos informação de lugares de outra forma inacessíveis. Por outro, tornaram-se o principal veículo de difusão de narrativas, muitas vezes contraditórias e cada vez mais difíceis de verificar. Num conflito como o actual, a guerra trava-se não só no terreno, mas também com palavras e imagens: cada fotografia, cada vídeo, cada manchete pode tornar-se uma arma. Existe o risco real de perdermos as referências, de deixarmos de distinguir entre verdade e ficção, entre notícia e propaganda.
A tudo isto acrescenta-se ainda um elemento novo e inquietante. A guerra em curso levanta questões éticas para as quais não estamos preparados. Refiro-me, em particular, ao uso da inteligência artificial na guerra. Já não se trata apenas de armas cada vez mais sofisticadas ou de drones controlados à distância: entramos numa fase em que algoritmos seleccionam alvos, tomando decisões que até há pouco tempo eram exclusivamente humanas. O que acontece quando uma máquina decide quem vive e quem morre? Onde fica a responsabilidade humana? São questões novas, para as quais ainda não temos respostas, mas que já não podemos ignorar.
Não pretendo aprofundar estas considerações complexas. Limito-me a sublinhar que esta nova época levanta interrogações inéditas, que exigem reflexão séria. Estas crises do multilateralismo, das instituições e todas estas novas questões não são abstracções intelectuais distantes da nossa vida quotidiana. Pelo contrário, têm um impacto directo na vida da nossa comunidade; constituem o enquadramento em que a nossa existência quotidiana tem sido profundamente abalada nos últimos anos, causando grande sofrimento. Pergunto-me frequentemente, por exemplo, quantas pessoas morreram nestas guerras recentes na nossa região devido à “decisão de um algoritmo”. É neste contexto que devemos interrogar a experiência da nossa Diocese.
Sem pretender ser exaustivo, tentemos organizar as consequências deste caos nas nossas vidas, agrupando-as em cinco áreas principais:
1. A dissolução dos vínculos: dor, ódio e desconfiança
A primeira ruptura é a dilaceração do tecido das relações humanas. A dor – que merece sempre respeito – está enraizada na alma de demasiadas pessoas.
Perante as tragédias e injustiças do nosso tempo, o sentimento de ser vítima tornou-se uma reacção profundamente difundida. Cada um tende a considerar o seu sofrimento como único e absoluto. Esta atitude dificulta o reconhecimento da experiência do outro e influencia profundamente a forma como indivíduos e comunidades vivem e interpretam o que acontece à sua volta.
É necessário reconhecer, no entanto, que a experiência de ser vítima pode assumir significados diferentes, consoante as circunstâncias. Há quem perca a vida dentro de casa e quem morra em combate. Há quem veja a sua casa destruída por bombardeamentos e quem assista à perda progressiva da sua terra ao longo dos anos. Há quem viva cercado, privado de bens essenciais como alimentos e medicamentos, e quem enfrente o medo constante de ataques terroristas. A dor é sempre dor, e não pretendemos hierarquizar o sofrimento. Contudo, respeitando as diferenças e a sua complexidade, não podemos considerá-las todas idênticas. Há diferença entre quem exerce o poder e quem sofre sob ele, entre quem governa e quem é governado, entre quem possui armas e quem é
ameaçado por elas, entre quem ocupa e quem é ocupado. As responsabilidades são diferentes. Reconhecer esta diferença é um acto de respeito pela justiça e pela verdade.
O ódio abriu sulcos profundos. Assistimos a uma dolorosa desumanização do outro: quando o outro se torna apenas “o inimigo”, tudo passa a ser permitido. A violência não destruiu apenas cidades, casas, pessoas e esperanças; marcou também as consciências, envenenou o discurso público e gerou um sentimento de traição, até em relação a ideais que se julgavam partilhados. Criou um ciclo de vítimas contra vítimas que endurece os espíritos e dificulta cada vez mais a reconciliação.
A vida política e as instituições civis parecem incapazes de propor uma visão de longo prazo que ofereça perspectiva, aprofundando antes a confusão e o cepticismo num contexto dominado pela desconfiança. Por isso, muitos – sobretudo os jovens – começam a duvidar da possibilidade de coexistência e da existência de uma alternativa credível à espiral de conflito e injustiça.
Desde o início da guerra, a situação económica agravou-se em todo o lado. A ausência de peregrinos deixou centenas de famílias sem trabalho. O encerramento dos territórios palestinianos paralisou muitas outras. As comunidades têm dificuldade em fazer planos. Os jovens comprometem-se menos, casam-se menos e têm menos filhos. A crise habitacional agrava-se. Muitos olham para o estrangeiro e sonham com um futuro longe da sua terra. A emigração, ferida antiga, reabre-se hoje de forma mais profunda do que nunca.
Quando o grito dos que sofrem parece não ser ouvido nem respondido, surge a tentação de perder a fé, até nas comunidades de fé, que deveriam ser a voz dos mais frágeis – e até a fé em Deus.
Seria, no entanto, injusto ficar apenas nesta descrição sombria. Precisamente nesse vazio deixado pela política e pelo direito, associações, movimentos e grupos de base continuam a agir. Não por ingenuidade, mas por uma obstinada determinação em ver o outro como ser humano. São eles que constituem os fragmentos de humanidade concreta a partir dos quais pode nascer uma convivência possível.
2. Fragmentação e medo: a tentação dos enclaves
A esta dissolução dos vínculos soma-se a polarização crescente. Não apenas entre israelitas e palestinianos, mas também dentro das próprias sociedades. As pessoas fecham-se em grupos homogéneos, reforçados pelos algoritmos das redes sociais, que alimentam crenças e ampliam divisões.
O medo gera isolamento. Criam-se “bolhas” que não comunicam entre si. Definimo-nos cada vez mais por oposição ao outro. A identidade torna-se rígida e defensiva. Em vez de um “nós” inclusivo, surgem muitos “nós” em conflito.
Contudo, o sentido de pertença não é negativo em si mesmo. Cada comunidade tem a sua identidade e riqueza. O desafio é que essa identidade não se torne instrumento de exclusão.
A vida cristã mostra que é possível ter raízes fortes sem se fechar ao outro, transformando
o “nós” num espaço inclusivo.
3. O sentido de perda: palavras gastas e o bem comum obscurecido
Perdemos referências. Palavras como “coexistência”, “diálogo”, “justiça” ou “direitos humanos” parecem vazias. Perante a violência, ficamos sem palavras.
Também o conceito de “bem comum” perdeu força. Cada um parece pensar apenas na
sua sobrevivência e segurança.
No entanto, a realidade impõe-se: estamos destinados a coexistir. Esta terra é casa de todos. Para nós cristãos, há um mandato claro: ser sal e luz, promovendo encontros concretos quando as palavras já não chegam.
4. O desafio específico da Terra Santa: o diálogo inter-religioso em crise
O diálogo inter-religioso está fragilizado. Não por falta de encontros, mas por desconfiança e cansaço.
Os Lugares Santos tornam-se campos de disputa identitária. Textos sagrados são usados para justificar violência – um dos pecados mais graves do nosso tempo.
Apesar disso, para os cristãos, o diálogo não é opcional: é essencial. Faz parte da nossa vocação e do nosso futuro.
5. O rosto multifacetado da nossa Igreja local neste contexto
A nossa Igreja vive esta realidade complexa em territórios diversos – Israel, Palestina, Jordânia e Chipre – cada um com desafios próprios.
Em Gaza, os cristãos vivem no meio da devastação, mas a fé permanece viva através da paróquia e da caridade.
Na Palestina, a situação agrava-se continuamente, com o risco de uma ocupação permanente.
Em Israel, há desafios de discriminação, insegurança e trauma colectivo. Os católicos de língua hebraica sentem-se por vezes pouco escutados.
Migrantes e refugiados vivem na precariedade.
As escolas enfrentam dificuldades em educar para o diálogo.
Apesar de tudo, a Igreja continua a ser sinal de esperança, com iniciativas concretas de solidariedade em todos os territórios.
A Igreja universal também tem demonstrado proximidade, através da oração e do apoio material, testemunhando que a esperança é concreta.
Resta-nos uma pergunta exigente: fizemos o suficiente? Ou, por prudência, arriscámos sacrificar o nosso testemunho profético? Como anunciar a verdade sem criar novas divisões?
Esta é a nossa realidade: um vale de lágrimas, mas também de coragem e fraternidade. É neste deserto que somos chamados a reconhecer novamente a voz de Deus.
Perante este caos, a questão não é como fugir ou resolver tudo, mas como viver nele como crentes, sem nos deixarmos absorver pela sua lógica e sem renunciar ao testemunho do Evangelho. É tempo de levantar o olhar e perguntar o que o Senhor nos diz, deixando-nos guiar por uma luz que vem do Alto. Precisamos contemplar o sonho de Deus para a sua Cidade.
Parte II
Vocação: o sonho de Deus chamado Jerusalém
Tendo lançado um olhar geral – e inevitavelmente aproximativo – sobre a nossa realidade comum, embora diversificada, regressemos agora à questão inicial: como podemos exprimir e viver a nossa fé nesta situação de conflito? Podemos reformulá-la assim: qual é a vontade de Deus para Jerusalém? Procuremos então examinar juntos a imagem da Cidade Santa que Deus nos oferece.
A Sagrada Escritura, desde as suas primeiras páginas no livro do Génesis, apresenta o fundamento da relação tal como Deus a quis: entre Ele e a humanidade, entre os seres humanos e entre a humanidade e a criação. Este fundamento constitui o início de toda a história da salvação. Contudo, é sobretudo a perspectiva do Livro do Apocalipse que orienta aqui a nossa reflexão. Este livro, frequentemente mal compreendido – sobretudo por causa da sua linguagem simbólica – não pretende suscitar medo nem interpretações fatalistas da história, mas antes ajudar-nos a reconhecer o seu sentido último à luz da fidelidade de Deus e da esperança cristã.
Segundo a Escritura, a história humana começa num jardim, o Éden. O jardim simboliza uma humanidade ainda num estado de inocência primordial e, em última análise, de solidão. No fim, porém, no livro do Apocalipse, a narrativa conclui-se com um cenário completamente diferente, como que em espelho: uma cidade. Não uma cidade qualquer, mas a nova Jerusalém. Esta passagem não é um simples detalhe narrativo, mas uma revelação profunda sobre o destino da humanidade. A obra da salvação não consiste num regresso a um passado idílico e isolado, mas na construção de um futuro comunitário, complexo e reconciliado. O fim da história aponta para uma sociedade madura – uma “cidade”, de facto.
A primeira cidade mencionada na Bíblia é construída por Caim (Gen 4:17). Depois de matar o seu irmão, constrói um refúgio: um lugar destinado a pôr limite à violência, onde tenta reconstruir relações fraternas perdidas. Na Escritura, a cidade surge assim como uma tentativa humana de restaurar a convivência onde as relações foram destruídas. A última cidade da Bíblia, pelo contrário, é a nova Jerusalém que desce do céu (Ap 21–22).
Entre estes dois pólos – a cidade-refúgio construída pela humanidade por medo e a cidade-dom que desce de Deus por amor – desenrola-se toda a história da salvação. A Bíblia nunca apresenta uma imagem ideal e estática da cidade; a cidade “perfeita” não existe. Ela é sempre espelho de todas as contradições humanas: do pecado e da grandeza, da violência e da confiança. Cada contexto humano, cada cidade, reflecte e vive esta tensão.
Esta tensão percorre toda a Escritura e concentra-se de modo único em Jerusalém. Nenhuma outra cidade na Bíblia recebe tanto amor e tanta repreensão, tanta promessa e tanta condenação. Esta mesma tensão, como veremos, habita também a Igreja que nasceu em Jerusalém.
Quando hoje falamos de Jerusalém, concentramo-nos sobretudo nos aspectos políticos, históricos e sociológicos. Contudo, não devemos esquecer que aquilo que liga o mundo inteiro a este lugar ultrapassa a história, a geografia e as pedras. Quando falamos da Cidade Santa neste contexto, referimo-nos não apenas a uma realidade física, mas também – e sobretudo – a um símbolo do Povo de Deus e da Igreja, nascida no Pentecostes, no Cenáculo. Nesse momento, o Espírito Santo desceu sobre os Doze, isto é, sobre toda a assembleia apostólica reunida na sala onde Jesus instituíra a Eucaristia. Foi nessa manhã de Pentecostes que ocorreu o milagre descrito nos Actos dos Apóstolos. Os discípulos, que tinham recebido o Espírito, desceram à praça para anunciar o que tinha acontecido, e “cada um os ouvia falar na sua própria língua. Admirados e maravilhados, diziam: «Não são galileus todos estes que falam? Então como é que os ouvimos, cada um na sua própria língua?»” (Act 2:6-8).
Todos os presentes naquele momento, pertencentes a diferentes nações e línguas, pela acção do Espírito, tornaram-se capazes de se compreender e de construir unidade. Desde o início, a Igreja foi universal, una e diversa. A partir daí, os Doze partiram para levar o anúncio da Boa Nova a todo o mundo.
Ainda hoje, a comunidade cristã de Jerusalém conserva o seu carácter universal, que não deve ser confundido com uma simples dimensão “internacional”, mas remete para uma realidade mais profunda, exemplificada nos Actos dos Apóstolos. A maior parte das Igrejas continua a ter os seus centros eclesiásticos noutros lugares do mundo, mas cada uma mantém o seu coração e uma presença viva em Jerusalém. Nesta cidade, as diversas denominações cristãs partilham espaço e tempo, dando origem a um caminho imperfeito mas vital rumo à unidade dos crentes. Através de diferentes ritos e línguas, celebrados nos mesmos lugares e vividos no seio das nossas famílias, estas Igrejas oferecem uma imagem viva do que aconteceu em Jerusalém no dia de Pentecostes: povos diferentes reunidos no mesmo Espírito. Tal como então os Apóstolos partiram para anunciar o Evangelho a todas as nações, também hoje estas comunidades, enraizadas no mesmo lugar e muitas vezes nas mesmas famílias, são chamadas a redescobrir a plena comunhão na fé e na caridade.
Para os crentes, o vínculo com esta Terra implica também uma relação constitutiva, embora complexa, com o judaísmo e o islão. Aqui, o diálogo inter-religioso tornou-se, ao longo dos séculos, não apenas uma condição de sobrevivência, mas também um elemento de fidelidade à nossa identidade universal. É aqui que a Igreja-Mãe é desafiada a gerar vida e cuidado, promovendo a compreensão do outro, a exigente prática do perdão e o esforço de uma compreensão respeitosa.
A universalidade da Igreja não se opõe à concretização da Igreja local e das comunidades. Pelo contrário, é precisamente na Igreja local que a universalidade se torna visível e operante. É por isso que São João Paulo II falou de uma “interioridade recíproca” entre as Igrejas particulares e a Igreja universal.
Não só a Igreja, mas também a própria Cidade Santa conservou este carácter universal. O Papa Bento XVI descreveu-o com grande clareza numa homilia pronunciada em Jerusalém:
“Jerusalém, de facto, sempre foi uma cidade cujas ruas ecoam com diferentes línguas, cujas pedras são pisadas por pessoas de todas as raças e línguas, cujas muralhas são símbolo do cuidado providente de Deus por toda a família humana. Como microcosmo do nosso mundo globalizado, esta Cidade, se quiser corresponder à sua vocação universal, deve ser um lugar que ensine a universalidade, o respeito pelo outro, o diálogo e a compreensão mútua; um lugar onde o preconceito, a ignorância e o medo que deles nasce sejam superados pela honestidade, pela integridade e pela busca da paz. Não deve haver lugar dentro destas muralhas para estreiteza de espírito, discriminação, violência e injustiça. Os crentes num Deus de misericórdia – quer se identifiquem como judeus, cristãos ou muçulmanos – devem ser os primeiros a promover esta cultura de reconciliação e de paz, por mais lento que seja o processo e por mais pesado que seja o peso das memórias do passado.” (Bento XVI, Vale de Josafat, Jerusalém, 12 de Maio de 2009).
A missão da Jerusalém terrena é, de certo modo, tornar-se imagem e espelho da Jerusalém celeste, “profecia e promessa daquela reconciliação universal e daquela paz que Deus deseja para toda a família humana” (Bento XVI, ibid.). Esta é a missão que perdemos de vista no turbilhão violento dos acontecimentos dos últimos anos. E é a esta missão que devemos regressar.
Em suma, Jerusalém apresenta-se como um microcosmo simbólico no cruzamento de civilizações, religiões e etnias. É paradigmática do mundo inteiro e encerra muitos dos desafios contemporâneos que enfrentamos globalmente. Embora esteja no centro do conflito israelo-palestiniano, representa também a complexidade das relações entre diferentes religiões e nações. O conflito que divide esta cidade tem repercussões regionais e globais significativas. Um passeio pelas ruas de Jerusalém revela quanto a cidade é verdadeiramente um ponto focal de muitos outros conflitos globais: a tensão entre modernidade e tradição, democracia liberal e conservadorismo, universalismo e particularismo.
Jerusalém encarna também a diversidade de expressões da nossa Igreja e manifesta a sua vocação. Neste lugar, numa realidade marcada por fortes contrastes – próprios da história humana – a Igreja é chamada a exprimir-se.
As imagens mais fortes da Escritura que revelam a identidade profunda de Jerusalém, e consequentemente a identidade e a missão da nossa Igreja, encontram-se na visão de João sobre a Jerusalém celeste, descrita nos dois últimos capítulos do Apocalipse, de onde agora retiramos a nossa inspiração.
1. Um Novo Céu para uma Nova Cidade
“Então vi um novo céu e uma nova terra; porque o primeiro céu e a primeira terra tinham passado, e o mar já não existia.” (Ap 21,1)
A primeira coisa que João vê não é a Cidade, mas um “Novo Céu”. Jerusalém tem um
céu. Isto pode parecer trivial ou evidente, mas é a sua característica distintiva mais
eloquente. A sua antagonista, Babilónia, no Apocalipse, é também descrita em todos os pormenores. Contudo, em Babilónia, o céu nunca é visto. É uma cidade sem céu e, portanto, sem Deus – encerrada num horizonte puramente humano e terreno, e por isso destinada à ruína.
O céu de Jerusalém, além disso, é bastante especial: é um céu “novo”. Não é a primeira vez que João fala do céu. No capítulo 4 do Apocalipse, as visões começam com um anúncio significativo: o vidente entrevê uma porta aberta no céu (Ap 4,1). O céu é novo, então, antes de mais, porque está aberto. Foi aberto porque o Filho do Homem, que desceu do Céu, regressou ao Céu depois da Ressurreição, levando consigo a humanidade (cf. Jo 1,51). O novo Céu é um Céu já habitado pela humanidade.
Nesta passagem, encontramos uma indicação importante: para construir a cidade, para tecer relações autênticas entre nós e nas nossas comunidades, devemos começar pela consciência da presença de Deus, pela primazia de Deus, pela fé. Deus não deve ser excluído. Jerusalém não é apenas uma questão de fronteiras políticas ou de arranjos técnicos. A sua identidade principal – a característica mais importante da cidade e de toda a Terra Santa – é a de ser o lugar da revelação de Deus, o lugar onde as fés se sentem em casa.
Ainda hoje, esta dimensão se torna tangível e visível, especialmente naquilo que é considerado a Bacia Santa, onde se concentram quase todos os principais Lugares Santos: a Cidade Velha e o Monte das Oliveiras. As celebrações públicas das diferentes comunidades religiosas, marcadas por tempos diversos e por vezes sobrepostos, transformam a cidade, sobretudo em certas épocas do ano, dando origem a uma extraordinária sinfonia de diferentes orações, cânticos e liturgias.
É também comum, à primeira luz da aurora ou no silêncio da noite, encontrar homens e mulheres de todas as idades – judeus, cristãos e muçulmanos – a percorrer as ruas da cidade, envoltos nos seus diferentes mantos e dirigindo-se aos respectivos Lugares Santos, para se juntarem aos religiosos e religiosas que ali rezam dia e noite. As orações das diferentes comunidades religiosas acabam por marcar o ritmo de toda a cidade: são o seu sopro e a sua luz. Esta é a identidade mais bela e envolvente da cidade, a sua característica mais preciosa, que deve ser guardada e preservada.
Ignorar esta dimensão “vertical” da nossa terra, a sensibilidade religiosa e espiritual das comunidades que lhe pertencem – judaica, muçulmana e cristã – é a razão mais profunda do fracasso dos acordos de coexistência que tiveram lugar nas últimas décadas. Os futuros estarão também condenados ao fracasso se o carácter específico e profético de Jerusalém não for tido em conta. Ela deve ser, antes de mais, uma casa de oração para todos os povos (cf. Is 56,7). Não queremos pôr em causa, antes confirmamos, a necessidade dos diversos acordos de Status Quo existentes, que são importantes para regular as relações entre as várias comunidades da cidade. Contudo, creio que é também necessária a coragem de abraçar uma nova visão, de construir novos modelos de vida e de relações em que a fé comum em Deus se torne ocasião de encontro e não de exclusão. A fé abre-nos ao Céu e ao mundo, onde todos os crentes se sentem chamados a levar a humanidade a Deus. Nenhum projecto de coexistência na Terra Santa pode ignorar a dimensão vertical, a consciência de que esta terra é, antes de tudo, o lugar da Revelação.
2. Uma Cidade que desce do Céu
“E vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma esposa adornada para o seu esposo... E, em espírito, levou-me a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus.” (Ap 21,2.10)
A Cidade Santa não sobe orgulhosamente ao céu pelas suas próprias forças. João vê-a “descer do céu, da parte de Deus”, e vê-a descer duas vezes (três, se considerarmos também Ap 3,12). Este movimento descendente não é algo que tenha acontecido uma vez por todas, mas é o seu modo permanente de ser. A nova Jerusalém é uma cidade que recebe continuamente de Deus a si mesma e a sua própria vida. A sua existência não é uma conquista, mas um dom.
Ela desce “preparada como uma esposa adornada para o seu esposo”. Trata-se de uma imagem de intimidade e de relação. João utiliza também a imagem bíblica da tenda, onde Deus escolhe habitar entre os homens, lugar de encontro entre Deus e a pessoa humana (cf. Jo 1,14). É, portanto, uma cidade cuja natureza mais própria é viver uma profunda intimidade com o Senhor, mas também ser, como a tenda, um lugar de acolhimento. Este duplo movimento – intimidade e acolhimento – define a vida da Igreja. Na habitação de Deus no meio do seu povo, realiza-se a plenitude e alcança-se a vitória sobre o mal e a morte: não só o mal é vencido, mas a humanidade é consolada pelo próprio Deus, que enxuga as lágrimas dos olhos (cf. Ap 21,4).
Esta passagem dá-nos outra indicação significativa. Trata-se de um aviso crucial, sobretudo para as instituições religiosas da Cidade Santa: sem um contínuo “descer do céu”, isto é, sem recorrer humilde e constantemente à relação com Deus, deixando Deus iluminar o modo de pensar, sem se alimentar continuamente da Palavra de Deus, as nossas instituições correm o risco de se atrofiarem. Correm o risco de se tornarem fortalezas inexpugnáveis, fechadas ao mundo, em vez de cidades abertas e fontes de vida nova. Não se recebe de Deus, de uma vez para sempre, a força e a possibilidade de um olhar diferente; estes dons exigem um esforço contínuo da alma e do coração.
Na prática, para que as Igrejas e as comunidades religiosas se disponham a escutar a Escritura, é necessário, antes de mais, escutar o grito daqueles que não conhecem Cristo, que não O conhecem suficientemente ou que d’Ele se afastaram, bem como o grito dos pobres, dos marginalizados e dos que sofrem por causa dos conflitos. É aí, na acolhida activa da carne ferida da humanidade, que podemos verificar a autenticidade da nossa relação com Deus. Se o nosso olhar para Deus não se abre a um olhar para o outro que sofre, então não encontrámos verdadeiramente o Deus que desce à Cidade. É um apelo às autoridades religiosas para manterem unidas a proximidade com Deus e com o seu próprio povo.
3. O Templo e o Cordeiro
“Não vi nela nenhum templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro.” (Ap 21,22).
A Escritura apresenta Deus como Aquele que deseja habitar no meio dos homens. No Antigo Testamento, esta presença estava ligada ao templo, lugar de encontro entre Deus e o seu povo. O profeta Ezequiel também imagina uma cidade renovada em torno do templo, coração da presença divina e sinal da sua santidade.
Na sua visão da nova Jerusalém, o Apocalipse utiliza uma linguagem diferente. João afirma: “Não vi nela nenhum templo.” Isto não significa que a Presença de Deus seja diminuída, mas que já não está concentrada num espaço separado. O próprio Deus e o Cordeiro habitam no meio do seu povo e constituem o seu centro vivo. Nesta perspectiva, já não existe separação entre lugares sagrados e profanos: Deus não habita num edifício, mas na relação – não num lugar a conquistar e possuir, mas na história.
Consequentemente, não há espaços onde Deus esteja presente e outros onde não esteja. Não há lugares onde Deus escute e outros onde não escute. Desaparece também qualquer distinção entre incluídos e excluídos com base em critérios de pureza. Se, na visão de Ezequiel, o acesso ao templo era regulado por distinções rigorosas, na nova Jerusalém todos são acolhidos: homens e mulheres, crianças e idosos, saudáveis e doentes, livres e escravos.
Esta passagem do Apocalipse oferece uma poderosa lição à Jerusalém terrestre, dilacerada por conflitos ligados à posse dos lugares e à definição de fronteiras exclusivas. A obsessão pela ocupação dos espaços e pela propriedade tornou-se um dos principais critérios de interpretação das relações entre comunidades, gerando frequentemente divisão e violência. Parece quase que, para construir relações e ter direito à palavra, é necessário possuir, ocupar, justificar a própria presença através do território.
Não devemos ser ingénuos. Há espaços que devem ser guardados, lugares necessários para que cada comunidade viva e testemunhe a sua fé. Não devemos esquecer que a Terra Santa é também a Terra dos Lugares Santos, que guardam a memória e a identidade histórica dos povos. Mas as fronteiras servem para preservar a liberdade, não para a sufocar. Não devem tornar-se barreiras intransponíveis nem motivos de exclusão. É possível coexistir respeitando os espaços dos outros, tendo em conta a história de cada um e as diferentes sensibilidades.
Na Nova Jerusalém, portanto, não há lugares a possuir, mas relações a construir. Se o Deus da Cidade Santa não ocupa espaços nem ergue barreiras, então ninguém deve sentir-se excluído. Portanto, Deus não pode ser utilizado para justificar escolhas de fechamento ou exclusão.
Esta passagem do Apocalipse, ao mesmo tempo que nos convida a elevar o olhar ao céu, faz-nos regressar à terra: uma cidade está viva na medida em que reconhece que o verdadeiro templo a guardar, o seu centro vital, são as relações humanas e a relação com Deus. Pelo contrário, está destinada a definhar e morrer quando se deixa dominar pela lógica da posse, da desvalorização do outro e de narrativas auto-referenciais, em vez da luz do Cordeiro, que é a lógica do dom.
4. A lâmpada do Cordeiro: um novo modo de ver
“E a Cidade não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque a glória de Deus é a sua luz, e a sua lâmpada é o Cordeiro… E não haverá mais noite; não necessitam de luz de lâmpada nem de sol, porque o Senhor Deus será a sua luz, e reinarão pelos séculos dos séculos.” (Ap. 21:23; 22:5)
Vimos que, na nova Jerusalém, não há templo. Mas então, onde está Deus e como habita Deus em Jerusalém? Onde se encontra Deus? A presença de Deus na Cidade não é pesada,
volumosa ou impositiva. Deus está presente como uma lâmpada que ilumina. Deus está presente como Aquele que oferece a possibilidade de uma perspectiva diferente e, assim, um novo modo de viver; Deus ilumina as relações, a vida e todas as coisas.
Se a lâmpada é o Cordeiro, isso significa que é uma luz “pascal”: a luz d’Aquele que deu a sua vida por amor, livre e incondicionalmente. A Páscoa inaugura um novo modo de ver a realidade. É a experiência pascal que nos permite ver a vida mesmo onde os nossos olhos físicos só vêem morte, derrota ou devastação.
Esta passagem do Apocalipse leva-nos um passo mais além, para além do critério da posse, dos espaços asfixiados, das fronteiras fechadas e da propriedade idolatrada que vimos até agora. A luz não se possui; acolhe-se e difunde-se. Torna-se, assim, o critério para interpretar a realidade e orientar as escolhas. Com que olhos, com que espírito vemos os outros, especialmente aqueles que não são “dos nossos”? Com confiança, com medo ou — pior ainda — com desprezo?
Educar o olhar para esta luz — que é vida — torna-se a primeira tarefa daqueles que desejam pertencer a esta Cidade. Significa reconhecer cada pessoa — o pobre, o estrangeiro e até o inimigo — como criatura feita à imagem e semelhança de Deus, olhando para ela como se olha para Deus. É o mesmo estilo do Cordeiro que ilumina a Cidade: uma autoridade expressa na entrega de si que transforma o poder em serviço, e não em posse e dominação.
5. O estilo de vida da Cidade: acolhimento e memória
“Tem um grande e alto muro com doze portas, e junto das portas doze anjos, e nas portas estão inscritos os nomes das doze tribos dos filhos de Israel… E o muro da Cidade tem doze fundamentos, e sobre eles os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.” (Ap. 21:12-14)
O que sobressai nesta descrição é uma aparente incongruência. Os nomes dos doze apóstolos são colocados como fundamento do edifício, enquanto os nomes das doze tribos de Israel aparecem nas portas. Cronologicamente, esperar-se-ia o contrário: Israel vem antes dos apóstolos. No entanto, na visão do Apocalipse, o antigo e o novo não se opõem nem se sobrepõem, mas são recompostos numa unidade redimida. Deus não apaga a história, mas recria-a lançando novos fundamentos nos quais nada se perde e tudo encontra o seu lugar próprio. Jerusalém torna-se, assim, cumprimento tanto para as doze tribos como para os doze apóstolos. Só dentro desta Cidade cada um pode encontrar o sentido da sua própria história e missão.
Este é também um ponto decisivo para nós hoje. A violência nasce muitas vezes da incapacidade de reler a própria história de modo redentor. Isso acontece quando a memória se torna uma narrativa hermeticamente fechada, construída contra o outro e defendida como posse exclusiva. A anterior preocupação com a posse como critério para definir relações reflecte-se também na relação com a memória histórica. Há uma tendência para querer possuir a narrativa dos acontecimentos, tratando-a como território a defender, enquanto se questiona continuamente a narrativa histórica do outro. Assim, a memória deixa de ajudar a melhorar as relações e torna-se antes uma “memória tóxica” que as envenena. Negar a memória histórica do outro é uma forma subtil mas poderosa de exclusão.
O que é necessário, pelo contrário, é repensar os próprios conceitos de “história” e “memória” e, consequentemente, também as categorias de “culpa”, “justiça” e “perdão”. São estas que colocam a esfera religiosa em contacto directo com as esferas moral, social e política. Não se trata de negar os factos do passado, mas de verificar as suas interpretações, para que não determinem de modo violento as escolhas de hoje. Só através desta reavaliação honesta se pode redimir a própria compreensão histórica em benefício de toda a humanidade. Escolas, universidades, centros culturais, movimentos e meios de comunicação social têm a responsabilidade principal nesta missão de repensar e curar a nossa memória colectiva. Podem ajudar a construir uma narrativa histórica diferente, positiva e inclusiva.
Esta purificação não é uma operação diplomática nem um compromisso político; é um acto profundamente espiritual, porque toca as raízes da identidade e da dor. Exige que nos deixemos redimir por Deus para que, por nossa vez, possamos tornar-nos instrumentos e canais de cura para os outros. Só uma memória redimida pode gerar um futuro diferente. A missão da Igreja é promover uma verdadeira “purificação da memória histórica”. São João Paulo II recordou-o com força durante o Jubileu de 2000, quando falou da necessidade de purificar a memória como um acto profundamente espiritual, capaz de tocar as raízes da identidade e da dor.
Estou bem consciente de que este é um tema inaceitável para muitos. Para alguns, poderá ser “demasiado cristão”; para outros, poderá parecer utópico ou mesmo algo a rejeitar liminarmente. Contudo, este é o contributo, a missão, que o Cordeiro nos deixa. É o testemunho a que somos chamados, a “promessa e profecia” que deve sustentar a nossa peregrinação na Cidade Santa, na nossa Igreja: ousar imaginar um futuro que não nasce da posse, do medo ou da reivindicação, mas da redenção da história. Que Igreja seríamos nós se não tivéssemos a coragem de apontar para um mundo que ainda não existe, mas que Deus nos promete e que já entretemos no horizonte?
6. As portas abertas
“As suas portas nunca se fecharão de dia — e não haverá ali noite.” (Ap. 21:25)
Os muros de uma Cidade são sempre construídos para defesa. Aqui, porém, não são erguidos para defender a Cidade de ameaças exteriores, como se o que está fora fosse perigoso. Servem antes para definir um modo de vida e um sentido de pertença. E permanecem sempre abertos. Não há nada a defender, apenas um modo de vida a propor. Abertos em todas as quatro direcções, permitem que qualquer pessoa, a qualquer momento, entre e se torne parte desta nova humanidade. “A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos.” (Is. 56:7)
Aquilo que na Antiga Aliança era privilégio de um só povo, embora desde o início destinado a todos os povos da terra (cf. Gén. 12:3), é agora profetizado para todos. Todos podem fazer parte do povo santo de Deus. A Igreja hoje vive e anuncia isto, levando este tesouro profético em vasos de barro. Esta é também outra indicação clara que o Apocalipse nos oferece. Na Cidade que desce do céu, ninguém pode exercer um monopólio, porque a Cidade Santa, pela sua própria natureza, é incompatível com qualquer forma de fechamento, exclusividade ou identidade de cor única. Não pertence a uns contra outros, nem pode ser reduzida à posse de um grupo. As suas portas estão sempre abertas; não são apenas um pormenor arquitectónico, mas a expressão de uma
identidade definida apenas pelo acolhimento e pela relação. A coexistência resulta da partilha de um projecto comum, do qual todos são parte integrante.
Isto significa também manter abertas as portas entre as diferentes comunidades que compõem a nossa sociedade — não apenas “cruzarmo-nos” uns com os outros, mas verdadeiramente manter as portas abertas, isto é, conhecer-nos e apoiar-nos mutuamente.
7. O coração partilhado da humanidade
“As nações andarão à sua luz, e os reis da terra trarão para ela a sua glória… Nela introduzirão a glória e a honra das nações.” (Ap. 21:24, 26)
As portas da Cidade não estão apenas abertas. João especifica e acrescenta que os povos, as nações e a alteridade não são uma ameaça; pelo contrário, são considerados uma riqueza. É o ouro e o incenso das nações que embelezam a Cidade. Esta é outra das grandes novidades descritas pelo Apóstolo. Os critérios de beleza, santidade e pureza são completamente invertidos: o que é belo não é o que é puro, solitário ou isolado, mas aquilo que se abre ao outro. Jerusalém enriquece-se na medida em que acolhe.
No início, vimos que Jerusalém se constrói na medida em que se recebe de Deus. Agora a visão completa-se e vemos também que Jerusalém se enriquece na medida em que se recebe dos outros. As duas coisas caminham juntas. Isto parece cumprir a profecia de Isaías: “todas as nações acorrerão a ela. Virão muitos povos e dirão: ‘Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacob; Ele nos ensinará os seus caminhos e nós andaremos pelas suas veredas’” (Is. 2:2-3).
O coração do mundo está em Jerusalém, como testemunham os milhões de peregrinos que ali acorrem de toda a parte. Os peregrinos fazem parte da vida da cidade. Sem eles, sem esta ligação ao mundo, a cidade fica incompleta, e infelizmente vemos isso muito claramente nestes meses marcados pela sua ausência. Isto significa que os governantes locais devem ter sempre presente que aquilo que se vive em Jerusalém envolve a vida de milhares de milhões de crentes em todo o mundo. Não é apenas um assunto privado daqueles que têm a graça de ali viver. Jerusalém não pertence exclusivamente a ninguém; pertence a todos, porque não é despojo de guerra, mas um dom, um ponto de referência comum, um património da humanidade.
O mundo tem o direito e a responsabilidade de se interessar por Jerusalém — não para impor soluções de cima, desrespeitando a soberania e a autodeterminação dos povos que ali residem, mas para exercer uma pressão constante e discreta — diplomática, cultural e espiritual — para que nenhuma lógica de exclusão, dominação ou posse exclusiva prevaleça. A comunidade internacional deve garantir a missão universal de Jerusalém, recordando a todos que o que acontece dentro dos seus muros afecta o coração de milhares de milhões de crentes e toda a família humana.
8. A vocação: curar o mundo
A Cidade não é um fim em si mesma. A sua missão é universal e a sua vocação é terapêutica.
“Então o anjo mostrou-me o rio da água da vida, resplandecente como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro pelo meio da praça da Cidade. De um e de outro lado do rio está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore servem para a cura das nações.” (Ap. 22:1-2)
Do trono de Deus e do Cordeiro brota um rio de água viva, e nas suas margens cresce a árvore da vida, cujas folhas são “para a cura das nações”. Esta é a tarefa última e sublime de Jerusalém. A árvore da vida, que no Éden estava vedada à humanidade, está agora no coração da Cidade, acessível a todos. As suas folhas não são para alguns escolhidos, mas para a cura das “nações”, termo que no Apocalipse designa frequentemente o mundo incrédulo, aqueles que estão fora e ainda não conhecem Deus. A misericórdia divina não é privilégio de alguns, mas destino oferecido a todos.
A missão de Jerusalém não se fecha dentro dos seus muros nem se encerra nas suas portas. A fonte de água viva que brota do coração do Cordeiro irriga todo o mundo. Jerusalém é uma Cidade “voltada para fora”, chamada a dar fruto para a humanidade. Aquilo que recebeu do alto deve ser partilhado com todos. Tem uma missão específica, que lhe é própria: “curar as nações”. Curar de quê? O texto não o especifica, porque não aponta para uma única ferida, mas para a própria raiz da vida ferida. Diz, porém, que o que cura é o facto de estar viva, a sua participação na vida de Deus.
Será necessária cura na Terra Santa. Serão necessários longos caminhos de recuperação para as muitas e dolorosas feridas que este conflito inflige a todas as comunidades. Será necessário consolo para as tribulações causadas pelo ódio e pela “memória tóxica”. A missão da Igreja não é traçar fronteiras mais estreitas, mas manter as portas abertas, testemunhando um amor que nunca desiste e que se dirige também aos distantes, aos que duvidam ou resistem. Afirma-se a responsabilidade da liberdade humana, mas também a ilimitada graça divina.
A Terra Santa e a pequena e vulnerável comunidade cristã que ali vive têm muito para oferecer. Não possui poder militar nem económico, mas recebe do Cordeiro a “mansidão” daqueles que, segundo a bem-aventurança evangélica, herdarão a terra. Possui o poder do amor que se doa, o único poder que o mal não pode vencer.
Redimir as consequências do conflito — o ódio, o medo, a “memória tóxica” — é a tarefa específica e sublime da Igreja de Jerusalém para o mundo inteiro. As suas raízes estão na geografia da salvação, mas o seu olhar é universal: ser para o mundo não uma utopia, mas a semente de uma cidade real, a cidade colocada sobre o monte (cf. Mt. 5:14), irradiando a luz de Cristo para todas as nações, onde se aprende a arte do perdão, a força da igualdade e a alegria do serviço. Sobretudo, é a coragem do perdão o remédio mais poderoso, capaz de trazer cura, e é também o testemunho mais autêntico que a nossa comunidade pode oferecer aos povos desta Terra.
Isto não significa actuar como ponte entre duas partes em conflito, como se os cristãos fossem chamados a mediar a partir de fora. Esse não é o seu papel. Os cristãos na Terra Santa não são uma terceira parte, nem um tampão neutro entre israelitas e palestinianos, nem um corpo separado dos seus irmãos não cristãos. São, antes, sal, luz e fermento no seio das sociedades a que pertencem legitimamente. Maioritariamente cidadãos palestinianos ou jordanos, cristãos árabes, mas também cipriotas e israelitas, os cristãos partilham a história, a língua, as feridas e as aspirações dos seus povos. Não são chamados
a enclausurar-se num enclave protegido, nem a fugir, mas a viver plenamente a sua vocação: ser parte integrante da sociedade, partilhar o seu destino e contribuir para a transformar a partir de dentro com uma visão de humanidade — e de sociedade — enraizada no Evangelho.
Não oferecem ao mundo uma utopia abstracta, mas a semente — frágil, concreta, por vezes quase invisível — de uma cidade possível. Uma cidade que cresce a partir de baixo, na massa da vida quotidiana partilhada com os seus concidadãos muçulmanos e judeus, e que mostra que a coexistência, o perdão e a reconciliação são possíveis. Para todos.
9. Rejeição
Estes dois capítulos do Apocalipse que nos acompanharam não estão afastados da realidade. João está bem consciente de que, para além do fascínio e da beleza presentes nas passagens que apresentámos, existe também a possibilidade de rejeição. Diversas passagens referem isto (21:8, 27; 22:11, 15). Tomemos apenas uma como exemplo: “Fora estão os cães, os feiticeiros, os fornicadores, os homicidas, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira.” (22:15)
Trata-se de uma linguagem forte, à qual talvez já não estejamos habituados. No entanto, ela evidencia um elemento importante: viver na Cidade Santa implica uma escolha e uma responsabilidade. As muralhas da Cidade, como dissemos, não defendem, mas definem o modo de vida daqueles que escolheram viver iluminados pelo Cordeiro. Se alguém decide viver numa Cidade cheia de esplendor, com portas sempre abertas, desejosa de acolher e curar, assume também a responsabilidade de rejeitar tudo aquilo que não pertence a esse modo de vida.
Há uma escolha a fazer, um estilo de vida a adoptar. Quem o rejeita não pode permanecer dentro das muralhas, não pode fazer parte da vida da Cidade. Não se trata apenas de escolher viver na luz do Cordeiro, mas também de trabalhar para que as trevas e tudo aquilo que pertence ao mundo da morte não habitem na Cidade.
É importante compreender a natureza desta rejeição. Não se trata de um juízo sobre a nossa humanidade, sempre marcada pela imperfeição, nem sobre o facto de sermos pecadores necessitados de perdão; pelo contrário, é precisamente por isso que o Cordeiro é fonte inesgotável de misericórdia. A rejeição descrita na Escritura é algo mais radical: é a adesão deliberada, obstinada e sem arrependimento a um estilo de vida que é a própria negação da lógica do Cordeiro. É a escolha consciente da mentira como sistema, da violência como método. Manifesta-se na pretensão de possuir não só os espaços, mas também a verdade. É construir a própria vida e a própria cidade sobre aquele projecto de Babel que procura elevar-se até aos céus apenas com as próprias forças, excluindo Deus e, consequentemente, afastando o irmão.
A cidade de portas abertas não expulsa, mas define com clareza aquilo que é incompatível com a sua própria existência. A escolha é nossa: viver da luz que recebemos ou pretender ser nós próprios a luz. Para aqueles que fazem esta escolha, a cidade de portas abertas só pode aparecer como um juízo de condenação. Mas, para aqueles que abraçam o caminho do Cordeiro, ela é, e permanece para sempre, uma casa.
É importante sublinhar, contudo, que não devemos iludir-nos pensando que esta escolha é feita de uma vez por todas, nem que a Jerusalém celeste coincide perfeitamente com qualquer comunidade terrena, nem sequer com a nossa Igreja. Enquanto formos peregrinos na história, a Cidade Santa permanecerá diante de nós como dom e promessa, não como posse. Mesmo as nossas comunidades, as nossas instituições religiosas e os nossos corações trazem ainda as marcas do pecado e da divisão. A tentação de nos encerrarmos numa “cidade ideal” construída pelas nossas próprias mãos está sempre presente. Por isso, a Jerusalém que desce do céu nunca cessa de descer: precisamos sempre de a receber de novo, porque nunca a possuímos.
10. Uma Cidade para Todos: viver a história com os olhos do Cordeiro
A visão da nova Jerusalém, em última análise, não é um convite a fugir da história, mas antes um guia para caminhar dentro da história. É um modelo, um estilo, um verdadeiro ponto de referência para a comunidade cristã e para todos aqueles que têm a peito a cidade terrena.
Os princípios que emergiram – o enraizamento na realidade, a salvaguarda do sagrado, a universalidade do acolhimento, a força da mansidão, o primado da relação sobre a posse, a necessidade de redenção da memória, a abertura a todas as nações – têm implicações políticas, sociais e inter-religiosas imediatas. Dizem-nos que:
O carácter histórico de Jerusalém traz a consciência de que a cidade é casa de israelitas e palestinianos, sendo reclamada por ambos como sua capital. Contudo, pretensões exclusivas vão contra a vocação de Jerusalém. Ela é, antes, uma cidade a partilhar, um lugar de encontro.
O carácter religioso de Jerusalém não pode ser ignorado em qualquer acordo político. Os fracassos do passado demonstram-no. É necessário reconhecer que a característica primária da Cidade Santa é ser lugar da revelação de Deus.
A harmonia entre as comunidades (judaica, cristã e muçulmana) permanece como reflexo terreno da intimidade com Deus. As divisões são a negação desta realidade.
As instituições religiosas são chamadas a uma renovação espiritual contínua, para não se tornarem obstáculo ao conhecimento de Deus e ao encontro com o mundo.
A posse da terra e dos lugares santos não pode tornar-se um absoluto ideológico. São necessários novos equilíbrios que tenham em conta as necessidades vitais de todos, superando a lógica da exclusão. É possível encontrar formas de coexistência respeitando os espaços de cada um.
A comunidade internacional tem o dever e o direito de cuidar de Jerusalém, porque ela pertence a todos. O coração do mundo está em Jerusalém, e o que ali acontece afecta milhares de milhões de crentes.
A Igreja de Jerusalém, pequena e resiliente, encontra-se a viver aqui e agora o caminho da Jerusalém celeste: ser lugar de acolhimento, luz pascal que ilumina as trevas do ressentimento; ser casa de portas abertas, instrumento de cura no mundo. Este é o seu sonho, a sua missão, o seu dom à humanidade.
Parte III
Implicações pastorais
Depois de termos fixado o olhar na nossa realidade e contemplado o futuro que nos foi confiado, devemos agora perguntar-nos: como podemos nós, como comunidade, viver o estilo de “Jerusalém que desce do céu” no aqui e agora? Não podemos procurar aplicar um esquema abstracto; é necessário encontrar formas de nos deixarmos inspirar na vida quotidiana, nas nossas paróquias, famílias e instituições. É um caminho longo e exigente, mas é o único que nos pode encher de confiança.
Poderíamos pensar que nada podemos fazer por causa do conflito. Contudo, as dificuldades não devem tornar-se pretexto para cessar a caridade ou para justificar omissões. Pelo contrário, é precisamente nestes casos que a nossa acção pastoral deve tornar-se mais incisiva: não com a pretensão de sermos heróis, mas abrindo espaços para a acção de Deus.
Reflectindo sobre o que apresentámos até aqui, procurarei agora delinear alguns âmbitos pastorais nos quais é evidente que a missão da nossa Igreja é ser expressão concreta da visão que Deus nos confiou.
1. O primado da liturgia e da oração
Vimos que o primeiro elemento da Cidade que desce do céu é receber-se continuamente de Deus, mantendo viva a consciência da sua presença. A vida sacramental da Igreja – a liturgia e a oração – guarda e reaviva esta consciência. Trata-se de uma parte essencial da missão da Igreja.
Existe uma tentação subtil que devemos reconhecer: a de considerar a liturgia e a oração como um instrumento, um meio para obter outra coisa – ainda que seja a paz, o fim da guerra, soluções para os problemas. A oração não é um meio. É um momento de amor e de encontro com Deus, no qual procuramos vê-Lo e deixar-nos ver por Ele, como quando visitamos aqueles que amamos. É o coração, é o sopro. É aquilo que mantém viva a nossa comunidade quando tudo o resto vacila. Quem reza encontra confiança, mesmo quando tudo parece impossível, porque a oração pode não mudar tudo nem produzir resultados imediatos e visíveis, mas transforma o modo como vemos as coisas.
Devemos, por isso, manter a liturgia e a oração no centro da vida das nossas comunidades. Não apenas orações pela paz – que também devem ser promovidas – mas a oração como atmosfera constante e duradoura de vida, que dá forma aos nossos dias, às nossas semanas, às nossas comunidades.
Penso, em particular, na Liturgia das Horas rezada em comunidade, na lectio divina, na adoração eucarística: não práticas para especialistas, mas expressões simples e profundas da oração da Igreja, capazes de inserir a nossa vida quotidiana – com todos os seus medos e expectativas – numa relação viva com Deus.
Também a dimensão comunitária e terapêutica do Sacramento da Reconciliação deve ser promovida. Demasiadas vezes vivido como algo privado e isolado, ele é plenamente um
sacramento eclesial, que cura não apenas o indivíduo, mas toda a comunidade, restabelecendo a comunhão ferida. Celebrações penitenciais comunitárias bem preparadas podem dar a este encontro com a misericórdia de Deus toda a sua força de renascimento.
Uma atenção particular deve também ser dada ao Sacramento do Matrimónio e à pastoral familiar. Num tempo em que muitos têm dificuldade em acreditar na fidelidade e na durabilidade, acompanhar os esposos significa ajudá-los a construir a sua casa não sobre a fragilidade das emoções, mas sobre a rocha do amor de Cristo.
Em síntese: a liturgia não é um conjunto de práticas, mas a própria acção de Cristo que continua a formar, curar e sustentar a sua Igreja. Façamos da oração o coração pulsante das nossas paróquias, das nossas famílias, das nossas escolas. Uma comunidade que reza não foge da realidade, mas aprende a vivê-la sob o olhar de Deus, na luz pascal que brilha mesmo quando tudo à volta é noite. As paróquias são, de facto, o coração pulsante da nossa vida comunitária; é nelas que os sacramentos são celebrados e as liturgias vividas.
2. Famílias: Igrejas domésticas
Se as paróquias são o coração pulsante da nossa vida comunitária, as famílias são o seu sopro quotidiano. É nelas que a fé se aprende, se transmite e se encarna. É nelas que as crianças fazem as primeiras experiências de amor, perdão e confiança. É nelas que cada pessoa forma o olhar com que verá o mundo ao longo da vida.
Neste tempo de cepticismo e de medo, as nossas famílias têm uma missão adicional: tornarem-se laboratórios de reconciliação, escolas de humanidade, igrejas domésticas.
Ao reflectirmos sobre a “purificação da memória”, onde pode ela começar senão na família? Os pais são os primeiros narradores da história. A forma como contam o passado – com veneno ou com verdade, com ressentimento ou com confiança – marca para sempre os seus filhos. Educar para a convivência significa também dizer a verdade, mesmo quando dolorosa, sem transmitir ódio. Significa ensinar que se pode recordar uma história dolorosa sem procurar vingança, que se pode chorar os próprios mortos sem desejar a morte dos outros.
As nossas famílias são o primeiro lugar onde aprendemos concretamente a encontrar o outro: o vizinho, o colega de escola de outra fé, o companheiro de trabalho. Se os pais vivem relações de respeito e abertura, os filhos aprendem que isso é possível. Se os pais falam de forma depreciativa dos diferentes, os filhos absorvem esse veneno e interiorizam-no, moldando o seu olhar sobre o mundo.
E depois a oração. Uma família que reza unida, diz um antigo provérbio, permanece unida. Não são necessárias fórmulas complicadas. O sinal da cruz e a oração antes das refeições, uma breve oração à noite, o Evangelho aberto e lido juntos ao domingo, são pequenos gestos que criam um ambiente, recordando a todos – crianças e adultos – que Deus habita dentro destas paredes.
Penso, de modo particular, nas famílias mistas intra-cristãs, onde coexistem diferentes tradições. Num contexto que empurra para a separação, elas destacam-se como sinal profético: testemunham que o amor é mais forte do que as barreiras, que o encontro é
possível, que a unidade pode ser construída na diversidade. A elas vai o nosso apoio e a nossa admiração.
Sei bem que hoje as famílias estão sob pressão: a crise económica, o medo do futuro, a tentação da emigração, as dificuldades quotidianas. Muitas famílias são provadas, cansadas, exaustas. Sofremos com elas. A Igreja deseja estar ao seu lado, sustentá-las e ajudá-las a redescobrir a beleza do seu caminho.
A vós, famílias, digo: não vos sintais sós. A Igreja está convosco. A paróquia é a vossa casa. Não podemos certamente chegar a todos nem oferecer tudo, mas não tenhais medo de partilhar as vossas dificuldades, de pedir ajuda quando tudo parece escuro. E nunca esqueçais a vossa missão: sois as primeiras testemunhas da fé para os vossos filhos. Mais do que palavras, contam os gestos. Mais do que discursos, contam vidas de amor.
Que Maria, Mãe de Nazaré, que guardava no seu coração as maravilhas de Deus, acompanhe cada família da nossa Diocese. Que nos ensine a arte de cuidar e de unir, de esperar com paciência, confiando no tempo de Deus.
3. Escolas: Laboratórios do Futuro
As nossas escolas estão, talvez, entre os maiores dons que a Igreja oferece ao nosso planeta. Gerações de homens e mulheres – judeus, cristãos e muçulmanos – passaram pelas fileiras das nossas instituições. Isto não é um pormenor: é uma verdadeira missão.
Hoje, as nossas escolas são chamadas a fazer ainda mais. Não são apenas lugares de instrução, mas verdadeiras oficinas de uma nova humanidade. São espaços onde aprendemos a viver juntos, onde a diferença não assusta, mas enriquece, e onde o encontro com os outros se torna oportunidade de crescimento e não de conflito. O Papa Leão XIV, ao comemorar recentemente o 60.º aniversário do documento conciliar Gravissimum Educationis, afirmou: «A educação é um acto de esperança e uma paixão que se renova, porque manifesta a promessa que vemos no futuro da humanidade.» (Drawing New Maps of Hope, 3.2.)
Ao mesmo tempo, continuam a ser lugares essenciais para a transmissão da consciência cristã. Os nossos filhos devem saber quem são, de que história provêm e que tesouros trazem no coração. Uma fé que não é conhecida não pode ser testemunhada. Uma consciência frágil fecha-se no medo, enquanto uma consciência sólida e madura se abre ao encontro.
Imaginemos escolas onde não se transmite apenas conhecimento, mas também a capacidade de reler a história com olhos livres de ressentimento; onde o conflito não é suprimido, mas enfrentado com os instrumentos da compreensão do outro, do diálogo e do respeito; onde a qualidade do ensino caminha lado a lado com a qualidade das relações. Escolas onde a oração, o silêncio e a escuta ajudam os jovens a interpretar a realidade sem medo, e onde professores e educadores não são meros transmissores de conteúdos, mas testemunhas de um modo de vida.
As nossas escolas devem tornar-se os lugares onde a visão que delineámos nesta Carta –
a Jerusalém das portas abertas, a redenção da memória, a rejeição da violência – toma
forma concreta no método educativo e no estilo de vida quotidiano. É aqui que se joga uma parte decisiva do futuro deste planeta.
Tenho plena consciência dos problemas crónicos – não apenas financeiros – que afligem a maioria das nossas instituições escolares e académicas. Recentemente, surgiu em Jerusalém a questão das autorizações para professores provenientes de Belém, comprometendo seriamente a capacidade de manter a identidade cristã das nossas escolas. Também neste campo o conflito político tem consequências directas na vida da Igreja, e devemos fazer tudo o que for possível para ajudar e apoiar os nossos professores, sem nos subestimarmos. Tempos difíceis nos aguardam nos próximos anos. Contudo, uma coisa é certa: com mansidão e determinação, continuaremos a defender o carácter cristão das nossas instituições.
O meu agradecimento mais sincero vai para os directores, professores e todo o pessoal das nossas escolas. O vosso trabalho, muitas vezes exigente e pouco visível, é um investimento no futuro. Dia após dia, estais a construir a cidade da possibilidade com que sonhamos: uma cidade onde a convivência não é uma utopia, mas uma experiência aprendida desde a infância.
4. Hospitais e Acção Social: Folhas que Curam
Há um lugar onde o acolhimento, o diálogo e a cura já são realidades vividas: as nossas instituições de assistência social – os nossos hospitais, clínicas móveis, casas para pessoas com deficiência, orfanatos, centros da Cáritas, refeitórios sociais e albergues. O Livro do Apocalipse fala de uma árvore da vida cujas folhas são «para a cura das nações»: as nossas obras são como essas folhas, silenciosas e discretas, mas capazes de levar alívio a qualquer pessoa necessitada, sem exigir um documento de identidade ou uma confissão religiosa.
Nos nossos hospitais, judeus, cristãos e muçulmanos nascem, são tratados, sofrem e, por vezes, morrem juntos. Médicos e enfermeiros de diferentes religiões trabalham lado a lado. Nestes gestos quotidianos, o amor de Deus torna-se presente e cura divisões que as palavras muitas vezes não conseguem curar.
É aqui que o diálogo se torna carne. Não são necessários grandes discursos. Basta o gesto de quem suporta a tribulação, de quem oferece um copo de água, de quem permanece ao lado de uma pessoa que está a morrer. Nestes gestos, o amor de Deus torna-se presente e cura.
A nossa tarefa pastoral é dupla. Em primeiro lugar, devemos apoiar generosamente estas obras para que possam continuar a sua missão. Torna-se cada vez mais difícil assegurar a sua manutenção e desenvolvimento, preservando ao mesmo tempo o seu espírito de abertura e acolhimento, bem como o profissionalismo do seu compromisso. Esta será mais uma prova que teremos de enfrentar nos próximos anos.
Em segundo lugar, devemos dar a conhecer estas realidades para mostrar que outro caminho é possível. Demasiadas vezes escutamos apenas as vozes do ódio. Conhecemos demasiado pouco estes gestos silenciosos que mantêm vivo o tecido da nossa convivência.
A todos os que trabalham nas nossas instituições de saúde e de assistência social – médicos, enfermeiros, voluntários e trabalhadores – o meu mais profundo agradecimento. Vós sois essas folhas que, já hoje, silenciosamente, redimem as consequências do nosso tempo. Numa terra onde tudo divide, construís unidade. Num tempo em que o ódio se desencadeia, amais em silêncio. O vosso trabalho é precioso aos olhos de Deus e da comunidade.
5. Os Nossos Idosos: Memória Viva
Há um tesouro nas nossas comunidades ao qual corremos o risco de nunca prestar atenção suficiente: os nossos idosos. Numa terra envelhecida como a nossa, eles são também uma presença preciosa, digna de atenção e gratidão.
Os nossos avós, os nossos idosos, são a memória viva da Igreja. Viveram guerras, experimentaram expectativas frustradas, suportaram êxodos e trabalharam para reconstruir. Viram mudar fronteiras, bandeiras e poderes. Contudo, permaneceram, conservaram a fé e transmitiram-na, muitas vezes em silêncio, com a discrição própria de quem aprendeu verdadeiramente que as palavras têm peso e devem ser usadas com cuidado.
Hoje, muitos deles vivem sozinhos. Os seus filhos partiram, à procura de um futuro noutro lugar. As famílias estão mais fragmentadas do que nunca. A solidão dos idosos é um desafio que devemos enfrentar com um olhar novo.
Na nova Jerusalém, como vimos, todos têm lugar. Mesmo aqueles que já não produzem, mesmo aqueles que já não são rápidos, mesmo aqueles que precisam de ajuda nas coisas simples da vida quotidiana. Numa sociedade que mede o valor pela produtividade e pela eficiência, eles recordam-nos que a dignidade não se perde com a idade e que a vida é valiosa não pelo que fazemos, mas pelo que somos.
A sabedoria nasce do tempo e das provações que atravessamos. Mesmo quando a solidão se instala – porque os filhos estão longe ou as famílias se desagregaram – os idosos continuam a ser um tesouro precioso a preservar. «Os idosos ajudam-nos a apreciar a continuidade das gerações, pelo seu carisma de fazer ponte.» (Amoris Laetitia, 192)
As nossas paróquias destacam-se como lugares onde os idosos se sentem em casa. Onde não são apenas cuidados, mas escutados e amados. Precisamos de criar mais oportunidades para estar com eles, ouvir as suas histórias e aprender com a sua experiência. Os jovens, as famílias e a Igreja precisam deles.
A todos os idosos da nossa Diocese digo: obrigado. Obrigado pela vossa fidelidade silenciosa. Obrigado pelas orações que ofereceis dia e noite. Obrigado pela paciência com que suportais o peso dos anos e da solidão. Sois como raízes profundas, invisíveis, mas que mantêm a árvore de pé. Sem vós, a nossa Igreja seria mais frágil.
Maria, nos seus anos avançados, guardava no coração as maravilhas de Deus. Aprendamos com ela, e com os nossos idosos, a arte de cuidar e de esperar com confiança um futuro melhor.
6. Jovens: Coragem e Profecia
Se os idosos são memória, os jovens são profecia. Neles se concentram as expectativas, os receios e também as energias mais vivas das nossas comunidades. Eles demonstram que esta comunidade ainda tem futuro.
Os jovens de hoje são os primeiros a sofrer com a falta de trabalho, a habitação inacessível e um futuro que parece estéril. Multiplicam-se as suas interrogações acerca da sua pertença a esta terra e do seu futuro. Mas os jovens são também aqueles que ousam, que nunca desistem de fazer perguntas, sem dar nada por adquirido.
Aos jovens, portanto, digo: não acrediteis naqueles que vos dizem que aqui não há futuro. Construireis o futuro com as vossas próprias mãos, com a vossa inteligência, com a vossa fé. A Igreja quer estar ao vosso lado. Não temos soluções prontas, mas temos uma certeza: sem vós, a nossa casa torna-se mais pobre. Peço-vos que sejais audazes. Que não vos fecheis no medo, mas vos empenheis com confiança na construção da nossa cidade.
Que as nossas paróquias sejam lugares onde os jovens se sintam em casa. Não apenas como destinatários de actividades, mas como protagonistas. Lugares onde possam exprimir os seus talentos, onde as suas perguntas não sejam julgadas, mas acolhidas, onde possam enamorar-se de Cristo e da sua Igreja.
Que a Santíssima Virgem, que era pouco mais do que uma jovem quando disse o seu «sim», caminhe convosco e vos ensine a coragem de responder: «Eis-me aqui.»
7. Os Nossos Sacerdotes: um ponto de referência para a comunidade
Permiti-me recordar com gratidão os nossos sacerdotes. São aqueles que, dia após dia, estão no meio do povo, partilhando as lutas e as esperanças das nossas comunidades, repartindo a Palavra e o Pão da Vida.
Os nossos párocos estão na linha da frente. Neste tempo complexo, marcado pela confusão e pela desconfiança, a sua missão é mais delicada e preciosa do que nunca. Carregam o peso do cuidado pastoral, esforçando-se por reunir sensibilidades diferentes, por escutar a dor de cada pessoa sem alimentar divisões, por se tornarem sinal de unidade em contextos tantas vezes fragmentados.
Peço aos nossos sacerdotes que sejam, para as comunidades, um ponto de referência firme e positivo. Não simplesmente aqueles que administram os sacramentos – o que é também uma missão essencial –, mas homens capazes de escutar, encorajar e curar. Que a vossa palavra, num tempo de palavras gastas e tantas vezes venenosas, assuma o tom de uma palavra de confiança e de esperança. Que a vossa presença seja uma presença que une e acolhe.
Sei bem que a solidão, o cansaço e, por vezes, a incompreensão são fardos reais. Contudo, tantos de vós continuam a dar-se sem reservas, com paciência e generosidade. O meu mais sincero agradecimento, juntamente com o de toda a Diocese, vai para todos vós: pela fidelidade com que acompanhais as vossas comunidades, pela coragem com que, mesmo nas situações mais difíceis, continuais a ser presença da Igreja.
8. Vida Religiosa: Sentinelas da Aurora
Há uma outra presença silenciosa que atravessa toda a nossa Diocese, muitas vezes escondida, mas essencial: a dos religiosos e religiosas. São as sentinelas da aurora e da noite (cf. Is 21, 11-12).
Com a sua vida de oração e consagração, recordam-nos todos os dias que existe um «novo céu». Num tempo em que tudo parece reduzido aos horizontes estreitos da política, da sobrevivência e do medo, levantam o olhar e recordam-nos que, sem Deus, toda a construção humana, mais cedo ou mais tarde, desaba. Como recordava São João Paulo II, o seu é um testemunho profético da primazia de Deus e dos bens futuros, nascido do seguimento de Cristo e do amor pelos irmãos e irmãs (cf. Vita Consecrata, 85).
Penso em particular nos nossos mosteiros e comunidades de clausura, naqueles que vivem e trabalham nas periferias das cidades, e naqueles que servem em escolas, hospitais, paróquias e casas. Muitas vezes, a sua presença é discreta e quase invisível, mas é essencial. No silêncio da oração e na fidelidade do serviço quotidiano, testemunham que a vida cristã não se mede pela eficiência ou pela visibilidade, mas pela fidelidade e pelo amor. Numa terra marcada por divisões, com a sua presença, constroem modelos de convivência possível, para além das fronteiras de pertença.
Penso com particular gratidão naqueles que, nestes meses de guerra, partilharam plenamente o destino do povo. Religiosos e religiosas conheceram a fome, o medo e os bombardeamentos ao lado da população. Quando tudo parecia desabar, a sua presença tornou-se um sinal poderoso: Deus não abandona o seu povo. Quando a morte parecia prevalecer, continuaram a rezar, a servir, a permanecer próximos de todos.
Uma palavra de agradecimento vai também para os voluntários cristãos que, apesar da guerra, continuam a vir à Terra Santa para servir nas escolas, nas paróquias e em situações de pobreza. O meu mais sincero agradecimento vai para todos os religiosos e religiosas da nossa Diocese: com a vossa fidelidade silenciosa, sois peritos em comunhão e construtores de unidade. Não fazeis ruído, mas construís; não procurais visibilidade, mas semeais o bem. A vossa presença é uma profecia viva na Terra Santa.
9. Diálogo Ecuménico
Na nossa Diocese, as famílias cristãs são hoje quase todas mistas. Os nossos filhos vão juntos à escola, estudam os mesmos livros e partilham o mesmo futuro. A vida quotidiana ultrapassa, com muita naturalidade, distinções confessionais rígidas, demonstrando uma capacidade de fraternidade intercomunitária que somos chamados a preservar. Na Terra Santa, o diálogo ecuménico – ou melhor, a relação concreta entre as diferentes Igrejas cristãs – não é uma opção nem um exercício reservado a especialistas: é uma realidade pastoral quotidiana e uma dimensão constitutiva da vida da nossa Igreja.
Nenhum pároco pode acompanhar a sua própria comunidade sem ter em conta as outras comunidades cristãs que vivem no mesmo território. A nossa missão desenrola-se inevitavelmente dentro de uma rede de relações, que exige respeito, coordenação e um sincero desejo de comunhão.
Um dos desafios mais profundamente sentidos diz respeito às diferenças nos calendários litúrgicos, particularmente no que toca à Páscoa. Em algumas zonas da Diocese, pode acontecer que, ao mesmo tempo, uma comunidade celebre a Ressurreição enquanto outra
inicia a Quaresma. Trata-se de uma situação dolorosa, especialmente para as famílias, e que há muito interpela a consciência da Igreja. Tem havido ampla discussão sobre como resolver esta situação, e por vezes oscilamos entre adoptar o calendário gregoriano ou o juliano, consoante a época. A verdade é que ainda não existe uma solução. Qualquer que seja a escolha feita, não poderá responder a todas as necessidades diversas e variadas da nossa Igreja. Por isso, somos chamados a abordar este desafio com espírito de paciência, encorajando a participação mútua e a partilha fraterna, continuando a rezar e a esperar por um caminho que não pode nascer de decisões abstractas, mas de um crescimento partilhado.
Em Jerusalém, o peso das divisões entre as Igrejas do mundo manifesta-se de modo particularmente concreto, na própria carne das nossas comunidades. A nossa vocação não é apenas ser instrumento de cura para a cidade e para o seu povo, mas também trazer para a vida quotidiana esta cruz da Igreja universal, que aqui tem o seu coração. Se, um dia, dermos passos significativos neste campo, toda a Igreja universal poderá beneficiar.
As relações entre as Igrejas são ordinariamente vividas num espírito de cortesia e respeito mútuo, tanto ao nível da hierarquia como da vida paroquial. Este é um sinal de maturidade que deve ser preservado. Devemos, contudo, reconhecer que, nos últimos tempos, algumas posições se endureceram e que, em certas áreas, estão a surgir incompreensões e tensões, por vezes dolorosas. Nessas situações, a tentação é erguer novas barreiras e adoptar uma linguagem alienante. Sem ingenuidade, somos chamados a permanecer fiéis a um modo de vida feito de acolhimento e mansidão, mantendo um olhar aberto e receptivo, sem perder a nossa identidade, a nossa história, e permanecendo fiéis à nossa vocação.
Por isso, é importante promover oportunidades concretas de conhecimento mútuo: intercâmbios entre paróquias de diferentes confissões, encontros entre sacerdotes e responsáveis pela pastoral juvenil. Só conhecendo-nos verdadeiramente poderemos superar o preconceito e a ignorância.
A nossa realidade exige também que falemos a uma só voz. Não apenas sobre questões sociais e políticas, como já fazemos, mas também sobre questões éticas fundamentais, como a defesa da vida, a igualdade entre os povos, o respeito pela dignidade humana, as desigualdades sociais e os direitos dos pobres, bem como as várias outras questões que dizem respeito à vida humana.
No nosso coração, a nossa intenção deve permanecer aberta à inclusão, ao acolhimento e ao esforço pela unidade, sem ingenuidade, mas também sem desistir. Não esqueçamos que o primeiro esforço do nosso ministério, e o primeiro testemunho, deve ser a unidade entre nós.
10. Diálogo Inter-religioso: não uma ilha, mas uma cidade
Como observámos anteriormente, o diálogo inter-religioso está hoje em crise. Cristãos, judeus e muçulmanos têm dificuldade em encontrar-se. A desconfiança abriu sulcos profundos, e muitos perguntam-se se ainda faz sentido persistir neste caminho.
Contudo, precisamente nestes tempos difíceis, o diálogo não é o capricho de alguns, nem uma opção entre muitas: é uma necessidade vital. Os nossos destinos estão entrelaçados.
Não podemos construir o futuro sozinhos, nem imaginar uma convivência que ignore o outro. Para nós, cristãos, como deixámos claro, o diálogo não é uma simples estratégia pastoral, mas parte integrante da nossa vocação e do nosso destino, a própria forma do nosso ser Igreja.
Todavia, é necessária uma passagem: do diálogo das elites para o diálogo da vida. Os encontros entre especialistas e as declarações oficiais são importantes, mas não bastam. O diálogo deve penetrar nas nossas paróquias, nos nossos bairros, nas nossas relações quotidianas. Devemos aprender a falar com os outros, e não apenas sobre os outros; a escutar verdadeiramente a sua história, o seu sofrimento, os seus medos. Só assim poderemos escapar à mentalidade que valoriza apenas o nosso próprio tormento.
As escolas representam um lugar privilegiado para este diálogo vivido. As nossas salas de aula são já, de facto, laboratórios de convivência. Aqui, é possível educar os jovens não apenas no conhecimento das religiões, mas na arte do encontro, ajudando-os a desenvolver um olhar crítico, capaz de resistir à narrativa única do ódio.
A acção social – hospitais, Cáritas, centros de escuta – é também lugar onde o diálogo acontece diariamente, muitas vezes em silêncio, através do serviço comum aos pobres e aos doentes. É aqui que a «cura das nações», de que fala o Livro do Apocalipse, já está a acontecer, silenciosa e incondicionalmente.
E que dizer do perdão? Sei que é uma palavra difícil neste momento. Mas somos cristãos, e Jesus é o mestre indiscutível do perdão. Perdoar não significa esquecer, nem pode significar justificar o mal. Significa quebrar a cadeia do ódio e testemunhar esta possibilidade, mesmo quando parece impossível. Sei que tudo isto pode parecer ingénuo. Mas é a nossa missão. O caminho é íngreme, eu sei. Mas não nos fechemos a ele. A nossa tarefa continua a ser sal e luz, criando oportunidades de confiança, mesmo quando as palavras parecem insuficientes.
11. Contra a cultura da violência
Vimos que aqueles que amam a mentira e a violência não entrarão na nova Jerusalém. A nossa rejeição da violência deve ser total e palpável. Já o dissemos muitas vezes, mas não basta: devemos vivê-lo, não só nos actos, mas também nas palavras. Vivemos mergulhados numa torrente de palavras violentas, que se tornaram linguagem comum. E também nós, cristãos, corremos o risco de cair nesta armadilha.
Que podemos fazer? Antes de mais, examinemos a nossa consciência no que diz respeito à nossa linguagem. Nas homilias, na catequese, nas nossas famílias: aprendamos a chamar as coisas pelo seu nome, sem jamais reduzir os outros a inimigos. Em todas as circunstâncias, os outros continuam sempre a ser pessoas a respeitar.
Nas famílias, eduquemos os nossos filhos para não usarem palavras de ódio, para não partilharem notícias falsas e para distinguirem entre a crítica legítima e o insulto. Nos nossos meios de comunicação, sejamos exemplares: ofereçamos uma informação que procure a verdade e favoreça a compreensão, não o confronto.
Sentimo-nos impotentes perante a lei do mais forte. Mas o Livro do Apocalipse recorda-nos que a força de Deus é a do Cordeiro: mansidão que não se rende, amor que não cede
ao ódio e perdão que desarma o inimigo. Que seja esta a nossa «política». O Papa Leão XIV recorda-no-lo muito bem na sua primeira mensagem de paz: «O mundo não se salva afiando espadas, nem julgando, oprimindo ou eliminando os nossos irmãos e irmãs. Pelo contrário, salva-se esforçando-nos incansavelmente por compreender, perdoar, libertar e acolher todos, sem cálculo e sem medo.» Celebração Eucarística na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus – LIX Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2026.
Rejeitamos qualquer cumplicidade com a cultura da violência. A nossa fidelidade é ao Cordeiro, não à lógica do poder. Venha de onde vier, seja qual for o rosto que assuma, a violência nunca é o caminho do Evangelho.
12. Confiança: Contra a corrente, mas necessária
Na primeira parte desta Carta, falámos do cepticismo. É um sentimento muito difundido nas nossas comunidades: cepticismo em relação às instituições, à política, às palavras e, por vezes, até ao futuro. Devemos reconhecer, contudo, que o cepticismo, quando se torna atitude permanente, acaba por nos paralisar. Somos chamados a responder a este cepticismo com confiança.
Não se trata de um optimismo ingénuo nem de uma atitude que ignora a dureza da realidade. A confiança cristã nasce da fé e é uma escolha contra a corrente. É a certeza de que Deus não abandonou a história ao caos e permanece próximo dos que sofrem, dos que são perseguidos, dos que são rejeitados. É a convicção de que uma vida gasta, dada por amor, nunca se perde.
Pensemos em Abraão e Sara. Humanamente, já não havia para eles qualquer perspectiva. Contudo, Deus visitou-os e confiou-lhes uma promessa. A confiança nasce sempre de uma visita de Deus. Por isso, devemos rezar para que o Senhor continue a visitar as nossas comunidades, as nossas famílias, os nossos corações. Só assim poderá nascer uma esperança que não desilude.
Concretamente, esta confiança impele-nos a apoiar e a tornar visíveis todas as iniciativas, pessoas e organizações da nossa região que continuam a acreditar nos outros e a promover a arte do encontro. Mas não basta simplesmente seguir o que outros fazem: somos chamados a tornar-nos nós próprios promotores deste estilo de presença, assumindo pessoalmente a coragem da unidade.
Alguns poderão pensar que estes gestos são insignificantes, porque «aqui nada alguma vez mudará». Contudo, mesmo que assim fosse, não podemos desistir de fazer a diferença. Queremos ser essa presença pequena, por vezes incómoda, que se recusa a deixar-se guiar por narrativas de ódio, mas que, com mansidão e determinação, afirma a sua própria verdade: os cristãos não odeiam. Este é o nosso testemunho, e já é profecia.
13. Acolhimento: O Sopro do Amor
Devemos confrontar-nos com o perigo latente que ameaça todas as comunidades, sobretudo quando são pequenas como a nossa: o perigo de nos fecharmos sobre nós mesmos e nos tornarmos uma fortaleza. A tentação é proteger o que resta, defender fronteiras, preservar a identidade – uma atitude certamente compreensível, mas que não é cristã. O amor que Jesus nos ensina não conhece fronteiras. Quando lhe perguntaram
qual era o maior mandamento, Ele uniu de modo inseparável o amor a Deus e o amor ao próximo. E esse próximo, na sua parábola, é um samaritano – um estrangeiro, alguém diferente, alguém com quem ninguém falava. Jerusalém – como vimos – tem sempre as suas portas abertas e existe na medida em que é acolhedora.
Acolher não significa apenas abrir as portas àqueles que vêm de fora – migrantes, refugiados, peregrinos, pobres de outras religiões –, mas também acolher-nos uns aos outros, para além das pertenças que nos dividem. Na nossa própria Diocese, temos católicos de rito latino e de ritos orientais, de origem árabe e judaica, provenientes de diversas culturas e nações: filipinos, indianos, asiáticos de outros países, latino-americanos, africanos, europeus. Somos todos uma só família, não um arquipélago de ilhas.
Acolher significa olhar para os outros – para qualquer pessoa – não como estranhos a tolerar, mas como um dom. Significa deixar-nos interpelar pela sua diversidade, permitir que ela nos enriqueça. Significa ultrapassar a lógica do «nós» e «eles», para entrar na lógica de um único «nós» que nos inclui a todos.
Sei bem que tudo isto, na situação em que estamos mergulhados, não é fácil. Há muito medo. A identidade parece frágil. Mas a consciência cristã não é uma fortaleza a defender; é uma nascente que corre. Uma nascente fechada acaba por ficar obstruída. Só a água que corre permanece viva e vibrante, levando vida, como o rio que brota do coração do Cordeiro.
Que as nossas comunidades sejam lugares onde todos – independentemente da origem, língua, cultura ou fé – possam sentir-se acolhidos, escutados e amados. Isto não é perder a nossa identidade, mas vivê-la na sua forma mais verdadeira: a do amor que não exclui ninguém.
Conclusão
Regressar a Jerusalém
Chegámos ao fim desta longa Carta. Talvez alguns de vós, ao chegar a este ponto, se sintam cansados ou perplexos: tantos temas, tantas provações, tantas indicações. O risco é sentirmo-nos esmagados e perguntarmos: «Como poderemos realizar tudo isto?»
A resposta é simples: não podemos. Pelo menos, não sozinhos. Mas não estamos sozinhos.
Com efeito, Jesus Cristo disse: «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.» (Mt 18, 20) Isto é verdade, e nós somos testemunhas disso: experimentámo-lo mesmo no nosso tempo. Por isso, convidamos-vos a não descuidar «a nossa assembleia» (cf. Heb 10, 25). Jesus espera-nos nas nossas paróquias, nas nossas comunidades de fé, nos nossos grupos e movimentos eclesiais. A inspiração do Espírito Santo é acessível na nossa vida quotidiana, através das Escrituras, da oração pessoal, do encontro com os outros e do serviço aos pobres. Mesmo quando somos tentados a recuar perante o sofrimento e a maldade que nos rodeiam, é voltando-nos para os outros que encontramos Cristo e a sua consolação.
Falámos de diálogo ecuménico e inter-religioso, da rejeição da violência, da oração, das escolas, das famílias, da acção social, da vida religiosa, dos idosos, da confiança e do acolhimento. Delineámos uma visão: a da Jerusalém celeste, uma Cidade com as portas sempre abertas, iluminada pelo esplendor do Cordeiro, com as folhas que redimem as nações.
Agora, tudo isto deve continuar a ganhar forma. Não tudo de uma vez, nem com heroísmos impossíveis, mas passo a passo: nas nossas paróquias, nas nossas famílias, nos nossos locais de trabalho e de encontro e com os nossos amigos. Relendo estas páginas com calma, partilhando-as e discutindo-as nos diferentes contextos eclesiais e pastorais, e fazendo-o devagar e pouco a pouco, espero que possam tornar-se uma ajuda concreta para compreender melhor a nossa missão na Terra Santa.
Porque, no fim, o que nos sustenta não é a nossa própria força, mas a alegria do Evangelho. Uma alegria que não depende das circunstâncias, que não se apaga mesmo quando tudo parece envolto em trevas. Uma alegria nascida da certeza de que o Senhor está connosco, que não nos abandona, que caminha ao nosso lado mesmo nas noites mais escuras, porque ressuscitou. E está vivo entre nós.
O Evangelho de Lucas termina com uma bela imagem: depois da ascensão de Jesus, os discípulos «voltaram para Jerusalém com grande alegria» (Lc 24, 52). Tinham ficado abalados, tiveram medo, duvidaram. Contudo, no fim, regressaram cheios de alegria.
Também nós desejamos regressar à nossa Jerusalém quotidiana – as nossas casas, as nossas paróquias, as nossas comunidades, os nossos compromissos diários – com essa mesma alegria. Não uma alegria ingénua, que ignora as dificuldades. Mas uma alegria pascal, que sabe que a luz vence as trevas, que a vida derrota a morte, que o amor desarma o ódio.
Regressemos a Jerusalém com alegria. Regressemos às nossas vidas com paixão. Levemos no coração o sonho de Deus para a Cidade de Deus, e deixemos que esse sonho se torne, passo a passo, dia após dia, a nossa própria vida.
Que Maria, Mãe de Deus e da Igreja, Rainha da Palestina e de toda a Terra Santa, Padroeira da nossa Diocese, nos acompanhe neste caminho.
Que a bênção de Deus, Pai omnipotente e misericordioso de todos, desça sobre cada um de vós.
Jerusalém, 25 de Abril de 2026 Festa de São Marcos Evangelista
+Pierbattista Pizzaballa
Patriarca Latino de Jerusalém

